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Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017 Rss
17 fev

A importância dos projetos para a produção textual

A importância dos projetos para a produção textual

Todos nós, professores e educadores, sabemos que, quando aprendemos com interesse e prazer, a aprendizagem se torna significativa. O que equivale a dizer: a aprendizagem acontece de verdade.
Esse pressuposto, que parece tão simples e óbvio a cada um de nós, é na verdade um dos maiores desafios para as escolas e para os educadores em geral. Como envolver os estudantes? Como tornar significativos para eles os conteúdos que nós julgamos importantes?

É dentro dessa perspectiva que se colocam os projetos, como meio de agregar conhecimentos (daí os projetos interdisciplinares ou multidisciplinares) e de envolver os alunos em suas diferentes etapas de produção.
A título de exemplo, gostaria de mencionar aqui uma experiência bem-sucedida que venho acompanhando há vários anos. Trata-se de um projeto das professoras Celinha Marques e Isabel Nogarotto, do Colégio Idesa, em Taubaté, cidade do interior de São Paulo.

Inspiradas em uma proposta do capítulo “Intervalo” do volume de 6º ano de nossa coleção Português: linguagens, as professoras deram início a uma experiência que certamente mudou não apenas a relação dos estudantes com a produção textual, mas também a própria relação deles com a leitura e com os livros em geral.
Capa da I Antologia de contos, lançada em 2006.

Capa da I Antologia de contos, lançada em 2006.

Em 2006, trabalhando o gênero conto maravilhoso, as professoras decidiram levar a cabo a proposta de produção de um livro com as recriações feitas pelos alunos dos tradicionais contos. Conseguiram um patrocinador para custear a impressão do livro, convidaram uma ex-aluna da escola para criar a capa, envolveram os alunos na criação, organização e revisão dos textos, convidaram uma pessoa para escrever uma das orelhas do livro, escreveram a apresentação e a quarta capa, providenciaram com os alunos a criação e a divulgação de um convite às famílias para a Noite de autógrafos… Enfim, a escola passou a respirar o conto maravilhoso!

As aulas de produção textual, evidentemente, deixaram de ser um mero componente curricular. Elas eram avidamente esperadas, pois os autores queriam escrever ou concluir logo os textos que constariam do livro.
Capa da VIII Antologia de contos, lançada em 2013.

Capa da VIII Antologia de contos, lançada em 2013.

A Noite de autógrafos foi simplesmente inesquecível. Eu mesmo estive em algumas dessas noites e pude ver de perto o quanto a escola e as famílias ficam envolvidas. Centenas de pessoas participaram e pediram autógrafos aos pequenos autores de várias classes, concretizando e finalizando assim um processo em que as aulas de produção de texto se tornaram altamente significativas para os alunos e até para as professoras.
Professor Cereja entre as professoras Celinha e Isabel, na Noite de autógrafos em 2011.

Professor Cereja entre as professoras Celinha e Isabel, na Noite de autógrafos em 2011.

De lá para cá já foram oito anos e oito livros. Ano a ano, o projeto é retomado, e os próprios alunos, ao chegarem ao 6º ano, a exemplo dos irmãos maiores, esperam ansiosos o momento em que eles também se tornarão autores.

Essa experiência ilustra bem a importância dos projetos na produção textual. Eis a razão pela qual nossas obras didáticas — todas elas, sem exceção – incluem os projetos como meio de tornar significativa a produção textual dos alunos, permitindo a eles que tenham leitores reais e diversificados e que vejam um destino adequado à sua produção. Em outras palavras, quando o aluno escreve contos maravilhosos, ele quer ter leitores reais interessados nesse gênero, e não apenas um professor-avaliador. Quando produz poemas, ele quer ter leitores-ouvintes que apreciem a poesia, seja a publicada em um livro, seja a declamada em um sarau poético.
Noite de autógrafos, em 2010.

Noite de autógrafos, em 2010.

Uma experiência mais radical do que a que descrevemos é a que vem sendo defendida por alguns autores, entre eles a professora Ângela Kleiman, da Unicamp-SP. Segundo esses autores, a definição do projeto deve preceder o planejamento escolar. Assim, se os alunos se interessam, por exemplo, em debater o tema da violência, que vem afligindo sua comunidade, e em deliberar alguns tipos de ação, dessa expectativa pode nascer um conjunto de atividades, como a leitura de textos sobre o assunto, a realização de um debate regrado ou de uma mesa-redonda, a produção de cartazes, a divulgação de uma carta aberta, etc.

Essa forma de atuação conta com um aspecto bastante positivo, que é ter como ponto de partida das atividades o interesse dos próprios alunos. Por outro lado, é impossível planejar previamente o conjunto de gêneros a serem trabalhados em cada ano, bem como a retomada de certos gêneros, pois tudo fica subordinado às decisões dos alunos, que podem variar de ano a ano, ou mesmo de uma sala para outra. Essa dificuldade, reconheço, esbarraria na estrutura e na forma de organização de muitas escolas mais rígidas e tradicionais.

De qualquer forma, é importante reconhecer que os projetos, no campo da produção textual, cumprem um papel que vai além do aspecto meramente lúdico. Eles são a própria razão de ser da produção textual e devem estar presentes em cada momento do processo de aprendizagem e no estudo de cada gênero.

2 comentários para "A importância dos projetos para a produção textual"

Suelene Fernandes Perez

24 de fevereiro de 2014 às 18:43

Todo projeto ajuda o aluno a desenvolver o seu pensamento crítico, principalmente aliado aos gêneros textuais pois, o aluno conseguirá através da leitura entender o processo histórico e cultural daquele texto e do autor que o expõe para o leitor, inserindo-o a entender e visualizar a sua própria realidade.

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Ofélia Lucila de Toledo

28 de março de 2014 às 9:57

Conheço as duas professoras do artigo acima e acho lindo o trabalho delas. Que elas continuem fazendo sempre estes projetos e mais professores queiram entrar de cabeça em projetos assim, porque a educação é parte dos professores e dos alunos. Também acho que o senhor deve continuar com a humildade que tem. Já trabalhei com seu livro uma vez e gostei muito.

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