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Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017 Rss
11 out

A interpretação de textos nas provas do Enem

A interpretação de textos nas provas do Enem

A criação do Enem, em 1998, trouxe um novo paradigma para as avaliações em Língua Portuguesa, até então bastante centradas nos conteúdos de literatura, gramática e redação. Com as provas do Enem, em lugar de conteúdos, entraram em cena as noções de competências e habilidades.

Desde então, nas provas de Língua Portuguesa do Enem, em vez de o candidato se deparar com questões que exijam conhecimento prévio de autores e obras da literatura, ou envolvam conceitos gramaticais, ele é convidado a simplesmente ler e compreender um texto, literário ou não, como se fosse um cidadão letrado qualquer, em contextos não necessariamente escolares.

São poucos os conhecimentos específicos de Língua Portuguesa que o estudante deve saber para resolver a prova do Enem, em que prevalece a interpretação de textos. De modo geral, aquele que tem hábitos regulares de leitura de diferentes tipos de texto (obras literárias, jornais, revistas, livros de divulgação científica) tem mais chances de se sair melhor na prova do que os outros candidatos.

Também em outras disciplinas o papel da leitura é fundamental. Muitas questões de História, de Geografia e de Matemática, por exemplo, dependem apenas de uma leitura atenta do enunciado, do julgamento correto das assertivas e da habilidade em ler textos não lineares, como uma tabela, um gráfico, um infográfico, um mapa, etc. e de fazer pequenos cálculos matemáticos como uma regra de três ou um cálculo de percentagem.

Em todas as áreas do conhecimento, o Enem também deu destaque a um tipo de questão conhecido como situação-problema, ou seja, a questão apresenta um problema que desafia o candidato a encontrar uma solução, e para isso ele precisa mobilizar diferentes habilidades, como ler e selecionar informações, ler gráficos ou infográficos, comparar ou relacionar informações, levantar hipóteses, fazer inferências, avaliar causas e consequências, eventualmente fazer alguns cálculos, etc.

Em Língua Portuguesa, que integra a área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, a situação-problema normalmente se apresenta na forma de confronto entre dois textos verbais (dois textos literários ou um texto literário e outro não literário) ou entre um texto verbal e outro não verbal ou multimodal (foto, pintura, quadrinho, cartum, etc.).

Vejamos como isso acontece nesta questão do Enem:

 
Cândido Portinari (1903-1962), um dos mais importantes artistas brasileiros do século XX, tratou de diferentes aspectos da nossa realidade em seus quadros.

Imagem_Portinari

Sobre a temática dos “Retirantes”, Portinari também escreveu o seguinte poema:

(….)
Os retirantes vêm vindo com trouxas e embrulhos
Vêm das terras secas e escuras; pedregulhos
Doloridos como fagulhas de carvão aceso

Corpos disformes, uns panos sujos,
Rasgados e sem cor, dependurados
Homens de enorme ventre bojudo
Mulheres com trouxas caídas para o lado

Pançudas, carregando ao colo um garoto
Choramingando, remelento
(….)
(Cândido Portinari. Poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1964.)

Das quatro obras reproduzidas, assinale aquelas que abordam a problemática que é tema do poema.

a) 1 e 2
b) 1 e 3
c) 2 e 3
d) 3 e 4
e) 2 e 4

 

Para responder à questão corretamente, o estudante deveria observar os quadros, identificar o tema (a migração), identificar o tema principal de cada um (respectivamente o baile, a migração, a migração e o cangaço) e, em seguida, ler o poema, identificar o seu tema (a migração) e relacioná-lo com as pinturas. Das quatro telas, duas (as telas 2 e 3) são representação visual do cenário descrito pelo poema: os retirantes com “trouxas e embrulhos”, com “corpos disformes, uns panos sujos”, “um garoto choramingando”. Logo, a alternativa correta é a c.

Trata-se de uma situação-problema relativamente fácil, mas rica do ponto de vista das habilidades envolvidas, já que envolve um trabalho com dois tipos de linguagem — a literária e a pictórica — e operações como observação, análise, relação e comparação.

Vejamos mais um exemplo com uma questão inédita, criada com a perspectiva das situações-problema do Enem.

Texto I
Há quem veja nessa torrente de informações que jorra na internet um fator negativo, dificultando nossa concentração em textos de fôlego como romances, por exemplo. [...] o crítico de tecnologia Nicholas Carr defende a tese de que a navegação na internet está interferindo em nossa capacidade de leitura. Se antes, afirma Carr, ele se sentia um “mergulhador num oceano de palavras”, hoje ele literalmente se sente “esquiando nesse oceano”, dando a entender que a experiência de ler proporcionada pela internet é bastante superficial.

[...]

(Revista Língua, nº 64. p. 28.)

Texto II

Imagem_Tira da Folha de SP

(Folha de S. Paulo, 16/12/2015.)

Ao abordar a questão da leitura de textos na internet, os textos I e II sugerem que:

a) os usuários estão exigindo um instrumental mais adequado para a compreensão de textos publicados na rede.

b) em razão da complexidade dos textos veiculados, a internet deve proporcionar ao leitor recursos para compreendê-los.

c) o dinamismo da internet possibilita maior rapidez de leitura de textos, como se o leitor esquiasse sobre as páginas da rede.

d) ao mergulhar num oceano de palavras, o leitor necessita de orientação para interpretar os textos da internet.

e) o pouco aprofundamento da maioria dos textos veiculados na rede desqualifica o leitor para a leitura e compreensão de textos mais complexos.


Para resolver a questão, o estudante precisa primeiramente ler e compreender bem os dois textos a fim de estabelecer relações entre eles e notar que ambos abordam o tema da leitura de textos que circulam na Internet.

O texto I ressalta a baixa qualidade desses textos e, como consequência, a capacidade de leitura cada vez menor dos leitores que leem apenas esse tipo de texto. Há, portanto, entre esses dois fatores, uma relação de causa e consequência que precisa ser notada pelo estudante.

Já o texto II ironiza a falta de capacidade dos usuários do Facebook para interpretar textos. Aqui também há uma relação de causa e consequência, não explícita, entre a baixa qualidade dos textos que circulam na Internet e a capacidade de leitura dos usuários da rede. Porém, nesse caso, o aluno precisa inferir essa relação.

O passo seguinte é comparar a visão que os dois textos apresentam em relação ao tema abordado. Comparar é estabelecer semelhanças e diferenças entre dois ou mais textos a partir de um único critério adotado. Assim, não seria difícil chegar à conclusão de que o item e apresenta a melhor análise dos dois textos, considerando o aspecto temático.

Trata-se, portanto, de uma questão que envolve diferentes operações, como localizar informações, estabelecer relações e comparações entre textos, fazer inferências e extrair conclusões. Essa diversidade de textos, contextos e operações cognitivas é o que caracteriza as situações-problema nas provas de Língua Portuguesa do Enem.

 
A preocupação com o desenvolvimento da competência leitora tem sido a espinha central da coleção Interpretação de textos — Construindo a competência leitora, obra que vai do 1º ano do ensino fundamental I ao ensino médio, escrita em parceria com a professora Ciley Cleto.

Neste ano, chega ao mercado uma nova edição da parte dessa coleção dedicada ao ensino fundamental II. No próximo post, comentaremos mais a respeito.  

 

 

 

 

 

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