Blog do Cereja


Sábado, 20 de Outubro de 2018 Rss
22 ago

A literatura negro-brasileira na coleção Português Contemporâneo

 A literatura negro-brasileira na coleção Português Contemporâneo

 

Na coleção Português Contemporâneo, além de incluirmos estudos de literaturas africanas de língua portuguesa, demos também um destaque especial, no volume 3, à literatura negro-brasileira, promovendo inclusive estudos comparados entre autores negros africanos e autores negros brasileiros.

 

A busca por esse caminho recebeu influências das publicações existentes sobre o assunto, particularmente de um livro do poeta paulista Cuti, a cujo trabalho nos referimos em post anterior. A nosso ver, não basta incluir textos de autores africanos; é preciso abrir espaço no livro didático para os nossos autores negros expressarem sua subjetividade e discutirem a questão da negritude na cultura brasileira.

 

Coincidentemente, Cuti vai participar de um “Seminário de literatura negra brasileira” no dia 29/8, na USP (Av. Prof. Luciano Gualberto, 403, Cidade Universitária, São Paulo, prédio de Letras, sala 266).

 

Reproduzo, a seguir, as considerações que já fizemos anteriormente sobre o assunto e convido a todos para participarem do Seminário.

 Imagem_Literatura africana

Literatura afro-brasileira ou negro-brasileira?

 

As questões que envolvem a negritude são complexas e, sem querer, podemos usar termos imprecisos, que guardam determinado valor semântico que nem imaginamos.

 

Os documentos oficiais do MEC, por exemplo, como a Matriz de referências do Enem, a Base Nacional Curricular, as avaliações do PNLD, entre outros, destacam a importância de a escola trabalhar com conteúdos relacionados com a cultura afro-brasileira ou afrodescendente.

 

Mas o que esses termos significam, exatamente? Eles se referem à cultura ou à literatura que têm relações com a África (ainda que seja a África lusófona), ou se referem à cultura e à literatura negras no Brasil? Parecem ser a mesma coisa, mas não são.

 

Se olharmos para os grandes nomes das literaturas africanas de língua portuguesa, por exemplo, veremos que muitos desses escritores são brancos. É o caso de Mia Couto, Luandino, Antônio Jacinto, Pepetela, Nadine Gordimer. Muitos deles, inclusive, têm formação europeia, geralmente em Lisboa.

 

Não é por outra razão que alguns intelectuais negros brasileiros não gostam das expressões “afro-brasileiro” e “afrodescendente” (expressão adotada pelos norte-americanos) para se referir à cultura negra, especificamente, pois a África também tem muitos brancos, muitos dos quais, no Norte, são brancos árabes.

 

Logo, imaginar que estamos valorizando a cultura negra quando nos referimos à cultura ou à literatura africana de língua portuguesa é um erro tão grosseiro quanto imaginar que no Brasil são todos índios ou têm feições indígenas.

 

Isso explica por que alguns têm preferido a expressão “negro-brasileira” para qualificar um produto cultural identificado com o povo negro, e não necessariamente africano.

 Livro_Literatura negrobrasileira

Mas aí entramos em outra discussão: o que é a literatura negra, por exemplo? Ela deve ser identificada pela cor da pele do autor? Só os negros de pele negra podem fazer uma literatura negra de verdade? E se o escritor for negro ou mestiço, mas não tratar das questões que envolvem a negritude e o povo negro (como é o caso de Machado de Assis, geralmente desprezado pelos movimentos negros)?

 

Cuti, escritor e militante negro, em seu livro Literatura negro-brasileira, expressa o ponto de vista de que a cor da pele não basta: “então, além do dado da cor, teria de haver o dado da escrita. Que escrita será essa? Parece-nos que a escrita afro-brasileira ou afrodescendente tenderia a se diferenciar da escrita negro-brasileira em algum ponto. O ponto nevrálgico é o racismo e seus significados no tocante à manifestação das subjetividades negra, mestiça e branca. Quais as experiências vividas, que sentimentos nutrem as pessoas, que fantasias, que vivências, que reações, enfim, são experimentadas por elas diante das consequências da discriminação racial e de sua presença psíquica, o preconceito? Esse é o ponto!” (São Paulo: Selo Negro. p. 38-9.)

 

Portanto, não sejamos ingênuos ou imprecisos no uso desses termos. Quando nos referimos à literatura africana de língua portuguesa, estamos nos referindo a autores de países lusófonos, que podem ou não ser negros. Quando empregamos a expressão “cultura afro-brasileira”, estamos nos referindo a uma suposta relação entre Brasil e países africanos em geral, indistintamente, e não apenas a países lusófonos ou de maioria negra. E quando nos referimos à produção cultural brasileira, produzida por negros identificados com as questões da negritude, talvez o melhor seja empregarmos a expressão “negro-brasileira”.

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