Blog do Cereja


Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014 Rss
24 fev

O ensino de gramática nas séries iniciais

O ensino de gramática nas séries iniciais

Neste mês, participei de um encontro com os professores do ensino fundamental I da rede de ensino Santa Mônica, no Rio de Janeiro. Apesar do calor de 40 graus e do apagão, que nos roubou o ar condicionado e o datashow, o encontro foi muito produtivo.
Encontro com professores da Rede Santa Mônica, no Rio de Janeiro.

Encontro com professores da Rede Santa Mônica, no Rio de Janeiro.

O tema solicitado pelos professores foi a gramática no ensino fundamental I, apontado pelos educadores como ponto de tensão entre a escola e os pais de alunos. Segundo relatos, os pais acham que a escola não ensina gramática porque ela não desenvolve nem exige dos alunos, nas mesmas proporções que fazia no passado, conteúdos clássicos da gramática normativa. Refiro-me às listas de coletivos, à conjugação de verbos, às listas de feminino ou de plural, e assim por diante.

Aproveito a oportunidade para retomar e ampliar aqui algumas das reflexões que fizeram parte daquele encontro e partilhá-las com outros professores, já que essas questões são recorrentes em várias escolas do país.

Ensinar ou não ensinar gramática nas séries iniciais?

Nas séries iniciais do ensino fundamental, o ensino de língua deve se voltar essencialmente à apropriação, por parte da criança, da base alfabética. Desse modo, as atividades de letramento e alfabetização se complementam, a fim de que a criança possa ampliar seu conhecimento sobre o sistema de escrita da nossa língua e, assim, possa desenvolver suas competências de leitura e escrita. Nas séries subsequentes, esse trabalho não deve ser abandonado, mas deve focar questões ortográficas mais específicas, como o emprego de RR, SS, NH, LH, QU, os encontros consonantais, etc. Encontro com professores Alguns conceitos gramaticais, como verbo, substantivo, plural/singular, concordância, etc., também podem ser introduzidos ao longo do processo, a fim de instrumentalizar a criança para que compreenda e utilize com consciência alguns princípios básicos da língua, mas eles, em si, não devem ser o principal objetivo do trabalho com a gramática.

Outra questão importante é o que e o quanto ensinar. Não acho que devamos querer ensinar todas as regras gramaticais no ensino fundamental I. A meu ver, o objetivo principal do trabalho com a língua nesse nível deve ser o domínio da escrita e, nesse terreno, é preciso respeitar as normas ortográficas da língua. Outras questões linguísticas, como flexão e concordância dos verbos, por exemplo, podem e devem ser trabalhadas, tendo em vista o domínio gradual da norma-padrão, cujo ensino, ao longo da vida escolar, é uma das tarefas da escola. Mas é preciso levar em conta que esse trabalho no ensino fundamental I é apenas inicial e deve ter o objetivo de dar suporte para a produção textual, e não ser um fim em si mesmo. Lembro também que, a partir do ensino fundamental II, o aluno vai ter oportunidade de aprofundar esse conhecimento teórico com professores especialistas. Enfim, não acho que o aluno deva, por exemplo, aprender regras e regras de concordância verbal, mas deve ter uma noção básica de concordância para poder redigir seu texto de acordo com a norma-padrão, se for essa a exigência naquele gênero.

A gramática contextualizada

O estudo da gramática deve se dar de forma contextualizada, o que ocorre somente quando feito a partir de situações concretas de uso da língua, ou seja, nos textos reais que circulam socialmente. Portanto, ele está vinculado diretamente às práticas sociais de linguagem e aos gêneros textuais. De acordo com essa perspectiva, não faz mais sentido aquele tipo de texto ― que já foi muito utilizado no passado ― criado artificialmente apenas para explorar algum conteúdo gramatical, como sílaba ou divisão silábica, por exemplo. O estudo deve procurar vincular o conteúdo gramatical à natureza do texto. Por exemplo, é natural e pertinente que, ao se estudar certo gênero como receita, falemos dos substantivos (relacionados aos ingredientes) e dos verbos (relacionados ao modo de fazer). Também podemos fazer referência aos numerais e às palavras que expressam quantidades e peso, como dúzia, meia, dois, cem gramas, etc.

Nesse desafio de trabalhar a gramática de forma contextualizada, o papel do professor é fazer uma escolha adequada de textos, isto é, selecionar textos que não apenas sejam válidos como objetos de leitura, mas também que sejam ricos do ponto de vista linguístico, isto é, que permitam, por exemplo, observar ocorrências, comparar situações, extrair conclusões, etc.

Nesse sentido, é fundamental que o professor produza ou escolha um material didático rico, com bons textos, que possibilitem bons desafios aos alunos.

A escolha do texto deve estar vinculada aos seus objetivos, pois, em cada texto, há um leque enorme de possibilidades de leitura e de abordagem gramatical. Portanto, se você não focar o que pretende trabalhar, corre o risco de aquele conteúdo e aquele objetivo se diluírem no processo. Acredito que deva haver sistematização, sem, contudo, transformá-la numa camisa de força que engesse o professor e a aula.

Se meu objetivo em gramática é trabalhar verbos, devo escolher um texto com boas ocorrências dessa classe gramatical. Contudo, esse não deve ser o único critério. Se o texto não for bom, não for motivador, certamente será uma aula ruim, pois não estimulará a leitura dos alunos. Logo, o conteúdo gramatical perderá valor. É bom lembrar que bons leitores se fazem com bons textos.

O estudo da gramática e a produção textual

O estudo da gramática contribui, sim, para melhorar a escrita do aluno. Quando se fala em estudo gramatical, é comum muitos professores pensarem em definições de classes gramaticais, como substantivo, artigo, pronome; ou pensarem em tábuas de verbos e listas de pronomes. Mas gramática não é só isso nem precisa ser ensinada dessa forma. Quando o estudo da língua se volta para a sua função social, como instrumento de interação social pela linguagem, a abordagem pode ser bem diferente e mais prazerosa para alunos e professores.

Há pouco, nós citamos o caso de alguns conceitos gramaticais, como os substantivos, os verbos e os numerais, que podem estar associados ao trabalho de produção textual, como no caso da receita. O mesmo ocorre quando, por exemplo, o professor vai trabalhar alguns gêneros narrativos, como o conto maravilhoso ou a fábula. Nesses gêneros, trabalhar o tempo verbal é essencial. O famoso “era uma vez”, que dá início a tantas dessas histórias, remetendo a um tempo vago e distante, se faz com o verbo ser no pretérito imperfeito, que é o tempo narrativo. Esse tempo verbal se alterna com o pretérito perfeito durante toda a história e é necessário conhecer as formas verbais mais usadas nesses gêneros para construir uma história. Por exemplo, quando a criança escreve “Era uma vez um rei que vivia num castelo distante e era muito amado por seu povo. Um dia ele disse aos seus súditos fiéis que queria que eles lhe dessem uma prova de fidelidade…”, há várias questões gramaticais envolvidas: o emprego do pretérito imperfeito (era, vivia, era, queria) e do pretérito perfeito (disse); a concordância nominal (seus súditos fiéis), a grafia de palavras como disse, súditos, queria, dessem. Veja quanta coisa pra trabalhar focando o uso da língua. Como disse antes, algumas dessas questões, como as ortográficas, estão relacionadas ao domínio da escrita; outras, como o uso dos tempos verbais e a concordância, estão relacionadas ao gênero e ao domínio da norma-padrão, que é obrigatória nesse gênero.

Enfim, acho que o trabalho de gramática no ensino fundamental I deve ter esse objetivo central: dar suporte linguístico tanto para ler quanto para produzir textos, dos mais diferentes gêneros.

Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=USiXsZDoro8

2 comentários para "O ensino de gramática nas séries iniciais"

romina lotif araujo braga

24 de fevereiro de 2014 às 16:08

Realmente essa questão da abordagem gramatical no EF1 causa muitas dúvidas e consequentemente muita polêmica!
A abordagem feita nas obras da linhaCereja e Cochar estão na dose certa!

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Suelene Fernandes Perez

2 de março de 2014 às 19:01

Alguns conceitos gramatical devem ser ensinados ao aluno, principalmente na construção da linguagem escrita. Cuidar com a ortografia, pontuação, estruturas sintáticas aliadas a coesão coerência. A gramática faz a linguagem escrita ficar com sentido, bem entonada, pois é a escrita aliado a um bom raciocínio que faz o homem criar sua história no mundo.

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