Blog do Cereja


Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017 Rss
20 set

PORTUGUÊS: LINGUAGENS / Uma entrevista com William Roberto Cereja

Caros professores,

Compartilho com vocês uma entrevista que dei à revista Desenredos (número 27), do Piauí, em junho passado. 

PORTUGUÊS: LINGUAGENS

Uma entrevista com William Roberto Cereja

por Adriano Lobão Aragão

 

ADRIANO LOBÃO ARAGÃO ― A coleção Português: Linguagens possui uma jornada de mais de duas décadas de ampla adoção para uso em salas de aula espalhadas por todo o país. A que o senhor atribui tamanha aceitação?

WILLIAM ROBERTO CEREJA ― Na verdade, desde a primeira edição da coleção, inicialmente voltada apenas ao ensino médio, já são 27 anos. Durante todo esse tempo, a obra se reinventou e se renovou várias vezes, acompanhando as mudanças que vinham ocorrendo nos estudos de linguagem nas universidades brasileiras, bem como as novas propostas de ensino de Língua Portuguesa trazidas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. Se compararmos a atual edição e a primeira, veremos que na atual quase já não há mais nada da primeira. A reformulação é importante porque permite atualizar textos que envelhecem; atualizar conceitos, de acordo com as novas teorias ou novos enfoques; inserir conceitos novos ou nunca antes trabalhados na educação básica; e assim por diante. Acredito que os professores, em todos os anos, perceberam essa busca constante dos autores e, por isso, confiaram à nossa obra a sua opção.

 

ADRIANO ― Como enfrentar o desafio de elaborar material didático voltado para um país tão extenso e culturalmente diversificado como o Brasil?

WILLIAM ― Viajamos muito pelo Brasil e conhecemos muito a realidade educacional do país, tanto as escolas públicas quanto as privadas. O diálogo com professores nos permite ver o ensino de Língua Portuguesa sob uma perspectiva mais ampla. De qualquer modo, procuramos seguir as orientações gerais do MEC em relação a conteúdos e metodologia, que se estendem a todas as escolas. Mesmo assim, claro que sempre vai faltar, numa obra escrita para todo o país, um elemento da cultura ou da realidade local, o que é uma pena. Aliás, em relação à diversidade de textos, provenientes de vários pontos, essa é a principal dificuldade dos autores, independentemente do lugar em que eles vivam. E acredito que não seja uma dificuldade apenas dos autores de livros didáticos, mas de toda pessoa que trabalha com produção cultural. Tentamos superar essa limitação incluindo na obra textos provenientes de diferentes Estados, mas mesmo assim é difícil. Por exemplo, por vezes queremos incluir uma reportagem ou um editorial de um jornal de outra região para trabalhar esses gêneros. Encontramos os textos na Internet, mas a qualidade deixa muito a desejar e, por isso, eles não podem servir como exemplo desses gêneros jornalísticos.  Às vezes, o jornal nem tem editorial. Tentamos incluir autores provenientes de diferentes Estados, mas mesmo isso é complicado. Por exemplo, os grandes cronistas mineiros como Drummond, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, viveram todos no Rio de Janeiro, e suas crônicas exprimem muito mais os ares dessa cidade do que de Minas. Muita produção cultural de poetas locais, com publicações independentes, e de compositores regionais, de pequena circulação, não chega até os autores de livros didáticos. Às vezes, quando chega, é difícil até conseguir a autorização do autor para a reprodução, pois ninguém tem o contato dele. Enfim, são muitos os problemas. De qualquer modo, há um princípio básico que norteia a obra: acima da questão regional, o critério número 1 para a inclusão de um texto na obra é a qualidade, independentemente de sua origem. O texto deve falar com crianças e jovens de todo o país, deve ter um conteúdo significativo, transformador, senão não serve.

 

ADRIANO ― Diante das inevitáveis atualizações e reformulações, o que permanece, digamos, intocável? E ao longo desses 27 anos de Português: Linguagens, o que mudou no autor William Cereja?

WILLIAM ― Inevitavelmente ganhei idade (risos) e também mais segurança e experiência para desenvolver minha atividade. Meu texto hoje é mais fluido, e a tarefa de escrever para públicos variados (do ensino médio e do fundamental 1, por exemplo) já não é tão difícil como foi no passado. Outra mudança importante é que hoje sempre penso o ensino de Língua Portuguesa na vertical, mesmo quando estou trabalhando focado numa obra voltada a um determinado segmento. Desenvolver um projeto vertical de Língua Portuguesa, como é o caso da coleção Português: Linguagens, permite ver e pensar o ensino de Português como um todo, como um processo. A escolha de gêneros ou de conteúdos gramaticais, por exemplo, exige essa visão vertical, a fim de que os conteúdos não sejam repetidos de forma aleatória. Se há retomadas, é porque elas são necessárias e, por isso, devem ser planejadas. Enfim, acho que agora estou numa fase boa da vida para começar a escrever livros didáticos (risos).

 

ADRIANO ― Um tema bastante discutido e controverso é a proposta de reforma do ensino médio. Qual o seu posicionamento em relação a isso?

WILLIAM ― A proposta da reforma ainda não está pronta e, por isso, fica difícil comentar. Acredito que há necessidade, sim, de uma reforma do ensino médio. De fato, os conteúdos devem ser mais significativos para os jovens dos dias de hoje, que estão muito ligados à tecnologia e muito cedo entram no mercado de trabalho, principalmente os estudantes da escola pública. Porém, a mudança no currículo e até o aumento no número de aulas não garante que o adolescente permaneça na escola. O governo tem vendido a ideia de que um currículo mais ajustado à necessidade do jovem — alguns querem adquirir uma profissão já no ensino médio e ir trabalhar, e outros pretendem continuar os estudos e ir para a universidade — vai resolver o problema do ensino médio, mas isso é falso. O problema da evasão escolar no ensino médio em nosso país está relacionado com a repetência. Os alunos da escola pública, por trabalharem durante o dia, por estarem cansados e com sono e por encontrarem uma realidade escolar pouco estimulante (professores mal pagos e desmotivados, classes lotadas, greves, falta de professores, etc.), acabam desistindo da escola. Eu mesmo fui um estudante que fiz o ensino médio noturno, depois de trabalhar o dia todo num banco. Sei bem o que é essa realidade e vi inúmeros colegas desistindo da escola por causa desse quadro. Acredito que para resolver o problema da evasão e da repetência escolar no ensino médio seja preciso desenvolver um programa especial para o estudante-trabalhador, um programa que envolvesse governo, empresas e escolas: carga horária de trabalho menor (por exemplo, 15 ou 20 horas por semana), flexibilidade de horários (de acordo com as exigências da escola), integração real entre o trabalho e a escola, etc. Enfim, o estudante seria tratado com dignidade, como um ser em formação e cujos estudos devem ser prioridade. Creio que um contexto como esse, de respeito e estímulo ao estudante-trabalhador, juntamente com um currículo estimulante e o uso de tecnologias da informação (o que ainda quase não existe nas escolas públicas), poderia criar um novo ensino médio no país.




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