Blog do Cereja


Sábado, 15 de Dezembro de 2018 Rss
08 dez

UM JABUTI PARA MAGDA SOARES

Divulgo e reproduzo aqui a resenha crítica de Marisa Lajolo a respeito da obra de Magda Soares, que venceu o Prêmio Jabuti deste ano, na categoria de não ficção.

 

UM JABUTI PARA MAGDA SOARES

Uma grande notícia neste melancólico final de ano de nossa terra, foi o Prêmio Jabuti de Magda Soares. O livro “Alfabetização: a Questão dos Métodos” da professora mineira foi considerado o “Livro do Ano Não Ficção”.

Capa_Alfabetização Magda Soares

Muitos vivas para a autora, outros tantos para a editora (a Contexto) e também muitos para o prêmio (o Jabuti) que reconheceu e, reconhecendo, chancelou a excepcional qualidade do livro 

E do que trata o livro? 

Como indica seu título, ele se ocupa de um dos maiores problemas brasileiros: a baixíssima qualidade da aprendizagem proporcionada pela maioria das escolas brasileiras. As crianças aprendem pouco e mal. Por quê? Porque não sabem ler. E não sabem ler por quê? Porque — salvo as exceções de sempre — a escola não sabe ensinar. Não sabe ensinar porque a formação dos alfabetizadores — na realidade, dos educadores em geral — é precária. Simples assim. 

Engana-se, e muito, quem for ao livro procurando a sugestão de um método que opere um milagre, o método milagroso que vai transformar em leitores os milhões de brasileirinhas e brasileirinhos que se sentam em bancos escolares. 

Nada disso. 

Magda sugere que a eleição de um ou de outro método de alfabetização é quase indiferente se, ao aplicá-lo, não se levar em conta a complexidade do ato da leitura; e, consequentemente, a complexidade das atividades cognitivas envolvidas na transformação de um ser humano em um leitor.

Estes saberes precisam fazer parte da formação dos professores. Em linguagem acessível, cuidadosa e envolvente, Magda aponta e discute as capacidades a serem desenvolvidas ao longo do aprendizado da leitura. Abreviando muito os instigantes tópicos sobre os quais se debruça o livro, podemos pensar em uma questão na qual vale a pena deter-se.

Quando é que alguém pode ser considerado leitor? 

No livro de Magda aprendemos que só sabe ler 1) quem sabe que alguns sinais gráficos correspondem a certos sons da fala 2) quem é capaz de entender e discutir o que está representado no enfileirado de sinais gráficos que tem diante dos olhos e 3) quem está familiarizado com certas práticas sociais que se organizam em torno da escrita.

Requisitos de mão dupla: também essenciais para a aprendizagem e desenvolvimento da escrita.

A farta e atualíssima bibliografia nas páginas finais, ao lado das frequentes citações ao longo do texto, constrói um perfil da autora. Mas ao lado desta Magda, intelectual rigorosa, com prêmios acadêmicos dentro e fora do Brasil, o livro compõe a figura de uma “outra” Magda. A Magda que simultaneamente às aulas na UFMG, às defesas de teses, às palestras e conferências convivia com professores do ensino fundamental, frequentava escolas municipais e estaduais, olhava cadernos de alunos. Ou seja, Magda via e ouvia o que se passava nestes cenários tão afastados da vida acadêmica.

Viu, ouviu e aprendeu.

E o resultado da aprendizagem foi este belo “Alfabetização: a questão dos métodos” melhor livro não ficção publicado no ano passado. E que, apesar de ser um “livro de não ficção”, parece ilustrar bem aquela sabedoria celebrada por um antigo poeta português, ao mencionar “um saber só de experiências feito”.  

É isso aí … 

                  Marisa Lajolo

 Fonte: www.facebook.com/marisa.lajolo/posts/1985532161464898?pnref=story   

 

 

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