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Wednesday, 27 de October de 2021 Rss
15 Jul

A construção de um currículo nacional de Língua Portuguesa

A construção de um currículo nacional de Língua Portuguesa

Créditos: Thinkstock/Getty Images

Créditos: Thinkstock/Getty Images

Um estudante do ensino fundamental deve estudar gramática de forma sistematizada ou deve ter apenas um contato superficial com alguns conceitos e categorias, sem a preocupação de distinção e classificação gramatical?

Um estudante do ensino médio deve estudar a história da literatura ou deve se restringir a ler e interpretar textos literários de diferentes épocas, sem ter a preocupação de compreender a sequência das épocas, com suas rupturas e retomadas?

Todos nós, professores de Língua Portuguesa, já fizemos ou ouvimos perguntas como essas e muitos de nós, às vezes, se perguntam por que e para que ensinar certos conteúdos. Retomo essas questões porque, a partir deste mês de julho de 2014, o MEC está iniciando a construção de um currículo nacional, oficialmente chamado de Base Nacional Comum da Educação Brasileira.

A verdade é que, nos últimos trinta anos, a disciplina sofreu transformações profundas em suas diferentes frentes, em virtude, principalmente, do avanço da Linguística e dos estudos de linguagem em geral. Se, por um lado, sentimos necessidade de também revermos conteúdos cuja pertinência na vida do estudante é discutível, por outro lado somos cobrados por pais, por coordenadores e por alguns exames vestibulares que, apesar das mudanças, insistem na abordagem conteudista.

Um exemplo claro dessa dubiedade é o trabalho com a gramática. Para tomar um exemplo, vejamos o caso da análise sintática. Todos sabemos que a análise sintática aprofundada, que se detém em questões bastante complexas e específicas ― como a distinção entre complemento nominal e adjunto adnominal, por exemplo ―, acrescenta muito pouco à construção de habilidades linguísticas e discursivas do estudante. Ou seja, o aluno não vai passar a falar, nem ler, nem escrever melhor porque faz essa distinção com perfeição.

No entanto, todos reconhecemos que alguns conteúdos gramaticais, como a concordância e a regência verbais, por exemplo, são indispensáveis ao domínio da norma-padrão, obrigatória em várias circunstâncias da vida, tanto na vida escolar e acadêmica quanto na vida profissional. Então pergunto: é possível ensinar as regras de concordância e de regência sem utilizar conceitos como o de sujeito, predicativo do sujeito, predicação verbal, objeto direto, objeto indireto? Como, se as regras se aplicam diretamente a partir desses conceitos?

Como se vê, o problema não é tão simples e requer uma discussão ampla sobre as consequências de qualquer decisão que se possa tomar no sentido de definir um currículo.

Assim como os professores, os autores de livros didáticos de língua portuguesa também encontram dificuldades para adotar a um currículo que possa atender a escolas de todo o país, com propostas de ensino tão diferentes e com diferentes posicionamentos sobre questões básicas, como que conteúdos ensinar em gramática ou em literatura, por exemplo.

A construção de um currículo básico, que possa ser tomado como referência por professores, avaliadores e autores de livros didáticos, é bem-vinda. Contudo, esperamos que essa construção seja amplamente debatida por todos os setores da comunidade escolar, a fim de que o documento cumpra efetivamente o seu papel, e não se transforme numa iniciativa isolada, feita por uma equipe de especialistas distanciada da escola e das necessidades reais de estudantes e professores.

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