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Sunday, 9 de May de 2021 Rss
13 Oct

A falta de clareza na proposta de gramática na Base Nacional Comum Curricular – Participe da discussão!

A falta de clareza na proposta de gramática na Base Nacional Comum Curricular – Participe da discussão!

Você já leu a proposta de ensino de língua portuguesa feita pelo MEC para a BNCC (Base Nacional Comum Curricular)? E, na proposta, já analisou e avaliou o que o documento propõe para o trabalho com a gramática?

Base Nacional Comum Curricular
A partir desta semana, vamos abrir aqui um espaço de discussão sobre a Base Nacional. Gostaria que os colegas professores manifestassem sua opinião, posicionando-se a favor ou contra o documento. Esse debate será útil para que possamos enviar nossas opiniões para o site da Base, responsável por coletar a opinião dos professores (http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/inicio) .

Nesta semana, vamos iniciar com a discussão em torno da gramática. A cada semana, puxaremos um aspecto da Base Nacional. Participe!

             Gramática: cadê você?

Na parte destinada à gramática, o documento apresenta lacunas e contradições que chamaram a atenção recentemente até mesmo do ministro Aloízio Mercadante (http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2015/10/1692804-mercadante-defende-mais-gramatica-no-curriculo-nacional-de-educacao.shtml).  Até o 3º ano do Ensino Fundamental I, a proposta é clara e cita os conteúdos essenciais para a fase inicial de alfabetização e letramento. A partir do 4º ano, entretanto, o documento afirma que a gramática deve ser trabalhada nos textos de estudo, seja na parte de leitura e interpretação, seja na parte de produção textual. Desse modo, não haveria um trabalho de sistematização ou de ampliação da gramática em nenhum momento do curso.

Essa postura é contraditória porque o documento menciona a importância de tratar a norma-padrão, dentro de uma perspectiva de diversidade linguística. OK, ninguém está propondo que a norma-padrão seja considerada o único uso possível da língua e o único “correto”. Contudo, fica difícil você ensinar a norma-padrão sem entrar em certos conteúdos básicos, como acentuação, ortografia, pontuação, crase, flexão dos nomes (por exemplo, saber que o plural de cidadão é cidadãos, de acordo com a norma), concordância verbal (por exemplo, saber que, de acordo com a norma, deve-se dizer “Houve problemas”, em vez de “Houveram problemas”), entre outros casos.

Em que momento o estudante teria contato com os pronomes, por exemplo? É difícil imaginar que um único texto apresente todos os usos de pronome para que possamos explorá-los de forma contextualizada. Imagino que, do ponto de vista da equipe que redigiu o documento, até o final do ensino fundamental II o aluno veria um pouco de pronomes toda vez que aparecer um pronome nos textos, e isso se daria de forma aleatória. Se não há nem uma indicação de que o pronome relativo, por exemplo, deva ser trabalhado no 9º ano, então isso poderá ocorrer a qualquer momento, de acordo com o que aparece no texto. E não haveria um momento de sistematização, por meio do qual o estudante pudesse confrontar o pronome relativo com outros, ou lidar com vários deles ao mesmo tempo.

Se o estudante vai produzir determinados gêneros como o editorial, a reportagem, a carta de reclamação, a carta aberta, etc., é necessário que ele tenha uma convivência mínima com os conteúdos da gramática normativa, pois nesses gêneros o rigor gramatical é indispensável.

A reflexão sobre alguns usos, advindos dos textos estudados, será suficiente para que o aluno produza esses gêneros de forma adequada? O que o professor vai fazer se os problemas gramaticais na produção dos estudantes ultrapassarem o patamar do razoável? Ele vai começar a inserir esses conteúdos por conta própria? Em que momento e de que forma?

Para o ensino médio, o documento propõe um “adensamento teórico”  e chega a citar explicitamente categorias fonológicas, morfológicas e sintáticas. Entendemos então que a gramática deva ser sistematizada no ensino médio… Mas todos os conteúdos? A análise sintática, por exemplo, que há tanto tempo vem apanhando nos documentos oficiais do MEC, seria mantida? Que conteúdos deveriam ser trabalhados no 1º ano e nos anos subsequentes? Se é uma base curricular, supõe-se que nem todos os conteúdos devam constar, mas somente aqueles obrigatórios, essenciais.

Um dos objetivos da Base é permitir a um estudante que se mude de uma cidade a outra, ou de uma região a outra do país, e dê continuidade normalmente aos seus estudos, sem que haja diferenças importantes no currículo escolar. Ora, por que então o MEC não deixa claro o que deve ser desenvolvido pelos professores em cada ano?

O documento ainda não é definitivo. Ele será discutido neste ano e, no próximo ano, será aprovado e começará a ser implantado. É importantíssimo que todos nós participemos dessa discussão, pois ela é muito mais importante do que a Reforma Ortográfica. O documento, se não for bem debatido, poderá nos trazer sérios problemas. Por outro lado, ele abre também uma boa oportunidade para melhorar o ensino de língua no país! Participe!

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