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Wednesday, 28 de July de 2021 Rss
22 Sep

A leitura e a avaliação escolar

A leitura e a avaliação escolar

No último dia 8, estive em Ipatinga, interior de Minas, onde encontrei os professores e coordenadores do Colégio São Francisco Xavier, uma escola de referência em todo o Vale do Aço.

No encontro, tivemos um momento muito rico de discussão quando foi abordada a questão da avaliação escolar em língua portuguesa. Elivete, a diretora pedagógica, comentou que há vários anos esse tema vem sendo discutido na escola e que, como em outras escolas, é uma preocupação constante dos educadores.

Na ocasião, Elivete citou um livro que é uma referência no assunto: Prova – Um momento privilegiado de estudo, não um acerto de contas, de Vasco Pedro Moretto (Editora Lamparina).  Para quem ainda não conhece o livro, fica aqui a dica: é uma obra séria, que, por uma perspectiva sociointeracionista, dá exemplos importantes de como trabalhar a avaliação de forma produtiva e reflexiva, e também de como não formular questões, isto é, como evitar enunciados vagos, confusos ou pouco significativos para aprendizagem do aluno.

Prova- Vasco Pedro Moretto

A discussão no colégio me fez  continuar refletindo a respeito do assunto. Os professores gostariam que a obra didática de 6º a 9º anos apresentasse questões de leitura e interpretação de textos mais complexas, na linha do que fazem as questões do Enem com suas situações-problema.

Para mim, a diferença fundamental que existe entre um curso de leitura e de formação de leitores e uma prova de língua portuguesa, que avalia, entre outras coisas, a leitura e a interpretação de textos, é que, no curso, não precisamos apresentar questões desse tipo durante todo o tempo.

Cada atividade tem um contexto, um objetivo e um tempo diferente. O curso, a meu ver, tem foco na formação do leitor. Logo, deve se voltar para o desenvolvimento de habilidades de leitura. Para isso, é necessário fazer um “passo a passo”, com operações das mais simples às mais complexas, para garantir que todos os alunos consigam trilhar todos os degraus do processo.

Já a prova de leitura, considerando o contexto, a finalidade e o tempo envolvidos, tem outros objetivos. A meu ver, a prova é uma espécie de síntese do processo como um todo. E é o momento ideal para apresentar enunciados mais longos, com contextualização e maior diversidade de operações, como propõe o professor Moretto e como solicita a prova do Enem.

Acredito que, durante o curso, é interessante haver momentos desse tipo. E, claro, é importante que a obra didática também proporcione momentos desse tipo, que reúna e relacione habilidades e áreas do conhecimento e promova momentos de reflexão mais abrangente e rica.

Contudo, imagino que o curso não deva ser o tempo todo assim, sob risco de tornarmos a aula de língua portuguesa um grande laboratório de treino para fazer provas, ainda que sejam reflexivas.

Nas aulas de leitura, é importante garantir o prazer do texto, o diálogo com os alunos em torno das possiblidades de interpretação, as possíveis relações com outros textos, a experiência pessoal que cada aluno traz para enriquecer a leitura, etc. Às vezes, a leitura se faz apenas com o diálogo sobre o texto. Nem sempre há necessidade de responder a questões escritas, muito menos a questões que sejam complexas, do tipo da situação-problema.

Acredito que o bom-senso é essencial nesse caso. Ou seja, nem deixar de trabalhar questões desse tipo, nem imaginar que a formação de leitores competentes dependa exclusivamente de questões desse tipo.

Agradeço aos professores de Ipatinga pela rica reflexão que pudemos fazer juntos.

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