Blog do Cereja


Wednesday, 27 de October de 2021 Rss
17 Nov

A produção de textos na Base Comum Curricular Nacional

A produção de textos na Base Comum Curricular Nacional

Das grandes frentes de trabalho de Língua Portuguesa – leitura, oralidade, produção de textos e gramática –, a parte de produção de textos parece ser a menos problemática. Mesmo assim, o documento apresenta alguns problemas que merecem atenção e cuidado. Comentaremos aqui a parte relativa ao ensino médio.

Créditos: Shutterstock

Créditos: Shutterstock

À primeira leitura, fica claro que o ponto de vista do grupo que elaborou o documento é o de aproximar a produção textual na escola das práticas textuais que ocorrem na sociedade. Isso explica, no caso do ensino médio, a inclusão de certos gêneros textuais pouco valorizados no meio escolar, como o ofício, a circular, a entrevista de trabalho, os relatórios de pesquisa, os diários de campo, claramente voltados para a vida e para o mundo do trabalho, e outros, relacionados à vida social e à esfera jurídica, como ata, edital, regulamento, lei, estatuto.

Do meu ponto de vista, essa iniciativa é ótima e, de fato, pode ser muito útil ao estudante de ensino médio que já trabalha ou pretende trabalhar; ao que vai ingressar na vida universitária; e também a todos os que, em algum momento da vida social, vão precisar lidar com a linguagem jurídica e com alguns gêneros jurídicos.

Apesar desse avanço, vejo alguns problemas no documento. O primeiro deles é a falta de clareza em relação ao que o aluno deve aprender a ler e ao que deve aprender a produzir (oral ou escrito).

Tomemos um exemplo concreto. Se observarmos a proposta para o 2º ano do ensino médio, o documento sugere “analisar a estrutura composicional de textos da esfera jornalística voltados ao relato de acontecimentos (como notícias, reportagens, entrevistas)”, mas em nenhum momento o documento propõe que o aluno produza algum gênero jornalístico. O trabalho com gêneros do jornal também não está contemplado no conteúdo que foi proposto para o 1º ano e para o 3º ano.

Apesar disso, na página 42 do documento se lê: “Os campos de atuação orientam a seleção dos gêneros textuais a serem preferencialmente trabalhados, sugerem atividades que tornem mais significativas as práticas de linguagem – como a organização de debates na escola, a elaboração de jornais impressos e digitais que propiciem a circulação e as informações de ideias – e podem também indicar temas a serem abordados em projetos interdisciplinares”.

Ora, se o aluno em nenhum momento de sua passagem pelo ensino médio vai aprender a escrever gêneros jornalísticos, como se pode propor que faça um jornal digital ou impresso? É incoerente, não?

Os conteúdos propostos para a produção textual no 2º ano são quatro, provavelmente pensados na proporção de um por bimestre:

● “produzir textos argumentativos, atentando especialmente para os critérios de paragrafação e para os recursos de coesão”;

● “produzir textos de natureza jurídica, política, reivindicatória (por exemplo, ata, edital, regulamento, abaixo-assinado, carta aberta)”;

● “produzir sínteses com reflexões próprias”;

● “produzir diários de campo (registro do percurso de um trabalho de pesquisa)”.

Em relação ao item a, é estranho que não seja mencionado algum gênero argumentativo, pois o aluno vai escrever e não apenas ler. E, do ponto de vista da teoria dos gêneros, é incoerente que ele produza um “texto argumentativo”, sem saber a que gênero pertence, qual será o seu público leitor, onde vai ser veiculado, etc. É uma proposta no mínimo estranha e muito próxima das antigas práticas de produção de dissertação escolar, atentando apenas para seus aspectos formais.

Outro aspecto curioso é a total omissão de gêneros orais no 2º ano. Gêneros como a mesa-redonda, o debate regrado, o debate deliberativo, o seminário ou outro não poderia ser retomado, com aprofundamento, ou proposto para esse ano?

Outro ponto que acho contraditório e lacônico é o papel da dissertação nessa base curricular. O documento não se refere à dissertação ou ao texto dissertativo-argumentativo, como chama o Enem, em nenhum momento. Refere-se a “textos argumentativos”, de modo vago e impreciso, mas todos sabemos que a dissertação escolar é um tipo de texto muito preciso, com tamanho, estrutura e finalidade muito específicos. Se a prova do Enem vai continuar a pedir o texto dissertativo-argumentativo, conviria que esse conteúdo fosse ao menos citado como “básico” no documento.

Por fim, creio que falta maior objetividade do documento quanto aos gêneros que devem ser produzidos pelos alunos. Há, por exemplo, citações genéricas como “reconhecer e analisar os efeitos de algumas estratégias narrativas – como o foco narrativo, a composição das personagens, a construção da ação, o tratamento do tempo”. Ora, “reconhecer e analisar” é diferente de produzir. Isso quer dizer que o aluno nunca vai produzir um conto ou uma crônica no ensino médio? Ele só vai ter contato com esses conteúdos do ponto de vista da leitura, e nunca da escrita? Imagino que seja uma perda para o aluno. E talvez nem fosse essa a intenção dos autores do documento.

O que falta, a meu ver, é maior objetividade e clareza na definição dos conteúdos. Fica claro que o MEC não quer engessar o currículo, mas deixar tudo tão vago acaba sendo um grande desserviço aos professores e às escolas.

 

 

 

Deixe o seu comentário

Seu email não será divulgado. Os campos obrigatórios estão marcados com *