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Wednesday, 27 de October de 2021 Rss
28 Apr

A prova de Redação do Enem

A prova de Redação do Enem

Todos os anos os professores de Português são procurados às vésperas do Enem ou dos exames vestibulares para sanar algumas dúvidas, para dar dicas ou até tentar prever o que vai cair como tema.

É evidente que o nosso papel, como educadores, deve ter um horizonte bem diferente do imediatismo de tais situações. Não se pode construir um bom produtor de textos do dia para a noite nem num passe de mágica.

Tanto a competência escritora quanto a competência leitora dos estudantes devem ser desenvolvidas ao longo dos anos, com um número quase ilimitado de situações, experiências e oportunidades que permitam ao aluno ler e produzir diferentes tipos de gêneros. E é essencial que, nessas situações, nunca se perca o vínculo dessas atividades com as práticas sociais de linguagem. Ou seja, ler e escrever notícia, reportagem, entrevista para fazer mesmo um jornal; ler e escrever contos para publicar um livro de crônicas; e assim por diante.

A exigência de uma dissertação escolar no Enem (exame proposto pelo MEC como meio de ingressar nas universidades federais, entre outras coisas) contraria completamente a proposta de um trabalho de produção textual com base nos gêneros do discurso, como paradoxalmente recomenda o próprio MEC em seus documentos oficiais, entre eles, os Parâmetros Curriculares Nacionais, por exemplo.

Compreende-se a magnitude do exame e a dificuldade de administrar uma prova de redação de tal importância. Mas, por outro lado, é inaceitável que o MEC recomende aos professores e às escolas um ensino de produção textual rico e diversificado como a proposta de gêneros, que exija dos autores didáticos uma abordagem coerente com essa proposta em suas obras e, no mais importante exame que dá acesso ao ensino superior, cobre dos alunos uma produção textual tradicional, engessada e distanciada das práticas sociais de linguagem, como a dissertação escolar.

Enquanto essa situação não se altera, às vezes temos de nos curvar às necessidades dos alunos que, inseguros, querem soluções fáceis para problemas históricos. E temos que orientá-los, como nestas sugestões básicas:

1. Como os estudantes devem se preparar para a redação do Enem?


Nos meses finais de preparação, convém conhecer os temas de redação que já caíram em exames anteriores do Enem, bem como em exames vestibulares passados. E, além disso, se possível, ler e examinar os exemplos das melhores redações que desenvolveram esses temas. Na Internet, é possível encontrar redações nota 10 tanto de exames do Enem quanto de vestibulares. Fica bem mais fácil perceber desse modo, de forma concreta, aquilo que o Enem considera como um texto desejável e adequado. Outra medida positiva é desenvolver algumas daquelas propostas como exercício e ver como se sai; quando possível, dar a um professor ou leitor experiente e pedir uma avaliação crítica e sugestões de como melhorar o texto.

2. Quais temas deverão ser cobrados? Para quais os estudantes deverão atentar?


Os temas de redação do Enem costumam se pautar nos assuntos que estão circulando na sociedade e no momento que estamos vivendo. Por isso, o leque é grande e não é fácil, nem é nossa tarefa adivinhar o que vai cair. O importante é estar atento a tudo o que está acontecendo em nosso país e no mundo nos últimos meses e anos: os movimentos e manifestações populares que aconteceram no ano passado, e cujos reflexos ainda se fazem presentes hoje; os limites entre o direito democrático de se manifestar e a violência; a Copa do Mundo no Brasil; o eterno tema da ética e da corrupção na política e nas instituições brasileiras; a questão da inclusão e das desigualdades sociais; a tecnologia e as novas relações de trabalho; a tecnologia e a educação do futuro… Enfim, o candidato que souber abordar com propriedade temas atuais como esses também estará pronto para desenvolver qualquer outro tema surpresa.

3. Como realizar uma boa redação?

É importante que o candidato conheça os critérios de avaliação da redação do Enem, amplamente divulgados no site da instituição e na imprensa. Portanto, em linhas gerais, é essencial não fugir ao tema, desenvolver o tipo de texto solicitado (até hoje, só a dissertação), respeitando sua estrutura básica: apresentação de uma tese na introdução, apresentação de argumentos no desenvolvimento e uma conclusão; além disso, respeitar o número recomendado de linhas, não manifestar nenhum tipo de preconceito e escrever de acordo com a norma-padrão.

Com esses elementos garantidos, o candidato já poderá alcançar ao menos uma nota média. Daí para a frente, varia de acordo com o grau de profundidade e originalidade de ideias, a consistência dos argumentos, a coesão entre as partes do texto, o domínio da língua tanto no que diz respeito ao vocabulário quanto em relação a estruturas sintáticas mais sofisticadas, como a inclusão de paralelismos, relações de causa e efeito, de concessão, de conclusão, etc.

4. Quais os principais erros cometidos que podem ser evitados?


Fugir ao tema, escrever um número de linhas menor do que o solicitado, querer escrever um poema ou uma carta, em vez de uma dissertação, deixar de estruturar o texto em partes e parágrafos, não apresentar argumentos consistentes nem desenvolvê-los, empregar gírias ou termos de registro informal que fujam à situação formal de uma avaliação, e querer ser “criativo” ou “original” como naquelas histórias contadas em cursinhos, nunca provadas, segundo as quais um candidato teria escrito uma única palavra na prova e teria tirado dez.

(Entrevista concedida por William Cereja ao Jornal dos Concursos e Empregos.)

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