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Wednesday, 27 de October de 2021 Rss
27 Sep

A reforma do ensino médio

A reforma do ensino médio

A reforma do ensino médio, que vem ganhando as manchetes de jornal desde a semana passada, é um assunto complexo, que deve ser tratado com cautela e sob diferentes perspectivas. Por isso mesmo, não poderia ser tratado como medida provisória, como fez o atual governo.

É verdade que o ensino médio tem sido um gargalo no qual muitos jovens oriundos do ensino fundamental têm ficado pelo caminho. Também é notável que é preciso fazer mudanças a fim de aproximar mais o curso da realidade do jovem. Porém, parece-me simplista a análise de que o jovem entre 15 e 17 anos tem abandonado a escola apenas porque o currículo é desinteressante.

Durante todo o ensino básico, estudei em escolas públicas e conheço bem essa realidade. A maior parte dos estudantes do ensino médio das escolas públicas estuda no período noturno a fim de iniciar a vida profissional e contribuir com algum dinheiro em casa. A maioria acorda muito cedo e vai direto do trabalho para a escola, quase sempre sem jantar. Chegam em casa por volta das 23h30min e vão dormir por volta da 1h da madrugada. Assim foi minha experiência no ensino médio noturno e pude acompanhar de perto a desistência de vários colegas, que iam ficando pelo caminho porque, tendo poucas horas para estudar, tiravam notas muito baixas; ou porque não conseguiam chegar às aulas no horário certo e, aos poucos, desistiam por não conseguirem acompanhar as aulas; ou porque tinham de servir ao exército e, depois de um ano, não retornavam mais; ou, no caso das meninas, porque engravidavam e, depois do parto, não regressavam.

Claro que havia, sim, uma ou outra aula desinteressante, mas também havia aulas motivadoras. Reconheço que o currículo é segmentado e muitas vezes distante da realidade do estudante, porém não acredito que esse seja o motivo principal. Além dos fatores mencionados, relacionados com o trabalho, há outros que interferem negativamente na motivação do jovem, como professores despreparados, inexperientes ou desmotivados, faltas e substituições constantes de professores, greves, violência escolar, autoritarismo, falta de um ambiente solidário e construtivo, falta de um sentimento de pertencimento à comunidade escolar, grande número de alunos por sala, falta de laboratórios em perfeito funcionamento, salas depredadas e muitos outros.

O anúncio do governo, feito na semana passada — de que Arte e Educação Física seriam eliminadas do currículo e, com exceção de Português, Matemática e Inglês, as demais disciplinas passariam a ser facultativas —, causou muito estranhamento. Ora, Arte no ensino médio deixou de ser importante por quê? É só fazer uma rápida leitura da Matriz de Referências do Enem 2009 para perceber o papel de destaque da disciplina na formação cultural do estudante. Como se pode falar em estudo contextualizado e interdisciplinar de um texto literário, nos documentos oficiais do MEC, se Arte for eliminada dos currículos e se a disciplina de História for facultativa? Como se nota, o caminho que o governo encontrou para “atualizar” o currículo é no mínimo estranho.

A flexibilidade no currículo não é necessariamente ruim e já existiu no passado, quando o então 2º grau era organizado em três áreas: Humanas, Exatas e Biológicas. Porém, independentemente da área escolhida, há de se garantir que todos os estudantes tenham uma base suficiente que lhes permita desenvolver competências e habilidades essenciais para o exercício da cidadania e para construir uma visão crítica da realidade.

Entre outros, o papel da escola deve ser o de permitir que o indivíduo consiga ascender socialmente e participe da vida sociocultural do país por meio dos estudos, e não o de formar mão de obra barata e acrítica para o mercado de trabalho. Uma formação insuficiente do jovem estudante só contribuirá para acentuar ainda mais as diferenças sociais que existem no país.

Outro aspecto estranho é o fato de a reforma do ensino médio preceder a publicação da Base Nacional Comum Curricular, agora prevista para o meio do próximo ano. Ora, não seria mais coerente definir o currículo mínimo previsto para o ensino médio e, na sequência, discutir que medidas seriam necessárias para dar vida a um novo ensino médio, entre elas a do aumento do número de horas e a introdução de disciplinas técnicas?

Neste momento, cabe a nós, professores, aprofundar as discussões com nossos pares. Não nos calemos. É hora de levar o debate às nossas reuniões, discutir com os pais, com diretores e especialistas e com os secretários de educação. Um passo errado nos rumos que a educação vai tomar em breve poderá significar décadas de atraso.

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