Blog do Cereja


Wednesday, 27 de October de 2021 Rss
22 Apr

Adeus, Gabo!

Adeus, Gabo!

Os feriados ficaram mais tristes com a notícia da morte do escritor colombiano Gabriel García Márquez, autor do conhecidíssimo Cem anos de solidão. Ganhador do prêmio Nobel em 1982, García Márquez foi um dos criadores do chamado Realismo mágico, que deu frutos maravilhosos em toda a literatura latino-americana, incluindo autores brasileiros como Murilo Rubião e J. J. Veiga.

García Márquez.

García Márquez.


Quem tece aqui um comentário afetivo sobre García Márquez ― não diretamente sobre a obra, mas destacando aspectos curiosos do processo de criação do escritor e de sua atuação como jornalista ― é Adriano Lobão Aragão, escritor, professor e nosso assessor pedagógico no Piauí.

TODA PALAVRA

Gabriel García Márquez

Nascido na cidade de Aracataca, o escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) escutava, ainda menino, as lendas e histórias contadas pela avó e pelo avô, um veterano das guerras civis que faleceu quando Gabriel tinha apenas 8 anos de idade. Muito tempo se passou até que esse manancial de experiências viesse a lume em forma de romance. García Márquez dedicou-se, então, ao jornalismo, além de escrever alguns livros, como o notável Ninguém escreve ao coronel. Conforme nos lembra Mario Vargas Llosa, no seu Dicionário amoroso da América Latina, “um dia de 1965, quando viajava da Cidade do México a Acapulco, García Márquez ‘viu’ o romance que vinha trabalhando mentalmente desde que era um adolescente: ‘eu tinha o romance tão maduro que podia, ali mesmo, ditar o primeiro capítulo, palavra por palavra, a uma datilógrafa’, ele confessou”. O episódio que se segue já se tornou antológico: o escritor trancou-se em seu escritório, bastante munido de papel e cigarros, durante vários meses, para, intoxicado de nicotina, à beira de uma colapso físico, ressurgir com um manuscrito de 1300 laudas intitulado Cem anos de solidão. Não se tratava, obviamente, do mero registro de lembranças e lendas colhidas desde a infância, mas da reordenação desses referenciais num universo já esboçado em seus livros anteriores e elevados agora a um novo patamar. Segundo, novamente, Vargas Llosa, “Cem anos de solidão prolonga e magnifica o mundo imaginário erigido pelos quatro primeiros livros de García Márquez, mas representa também uma ruptura, uma mudança qualitativa dessa realidade seca e áspera, asfixiante, na qual transcorrem as histórias de A revoada, Ninguém escreve ao coronel, A má hora e Os funerais de Mamãe Grande. […] Esse mundo, com toda sua coerência, vitalidade e significação simbólica, sofria de uma limitação que hoje descobrimos, retrospectivamente, graças a Cem anos de solidão: sua modéstia, sua brevidade. Todo ele pugnava para desenvolver-se e crescer; homens, coisas, sentimentos e sonhos sugeriam mais do que mostravam, porque uma camisa de força verbal cortava seus movimentos, media suas aparições, as detinha e as apagava no próprio momento em que pareciam a ponto de sair de si mesmas e explodir numa fantasmagoria incontrolável e alucinante”; é essa a explosão que encontramos em Cem anos de solidão.


Cem anos de solidão


Embora o colombiano tenha, certa vez, declarado que, desde o convívio com os avós em Aracataca (que se transformaria na Macondo de seus romances), não lhe tenha acontecido nada interessante, sua trajetória de jornalista é repleta de experiências inusitadas, que, com certeza, influenciaram na criação de sua obra. Em artigo publicado pela BBC Mundo, o jornalista costa-riquenho Néfer Muñoz relembra um episódio de 1954, quando o jovem García Márquez, trabalhando para o jornal colombiano El Espectador, passou dias viajando pela selva para cobrir um grande protesto contra o governo, na isolada cidade de Quidbó, no estado de Chocó. Ao chegar, encontrou a cidade em completa calma e constatou que o correspondente local, Primo Guerrero, inventara a notícia da tal manifestação popular. Nenhum protesto havia ocorrido em Quidbó. Entretanto, o jovem jornalista, disposto a não retornar de mãos abanando, convocou a população local e organizou, juntamente com Guerrero, um protesto improvisado para que o fotógrafo que acompanhava Márquez fizesse os devidos registros. Publicada no El Espectador, sob o título História íntima de uma manifestação de 400 horas, a falsa reportagem de García Márquez apresentava, além de informação de praxe, lances dramáticos, como a população revoltada chorando e se lavando em via pública em meio a nove dias de chuva contínua e implacável, sem arrefecer a tal manifestação. Não foi um caso isolado na trajetória jornalística de García Márquez, conforme declarou em entrevista concedida ao jornalista Daniel Samper: “inventávamos cada notícia…”.

Ao mesmo tempo em que encontramos uma atitude jornalisticamente condenável (forjar a notícia), não há como não se encantar com os diversos episódios em que Márquez mistura seu ofício com as fabulações de ficcionista, com direito à experiência de convocar a população para colaborar com sua ficção. E como não imaginar García Márquez atravessando por dias a selva colombiana para chegar a Quibdó sem recordar a jornada empreendida pelos povoadores de Macondo, descrita nos primeiros momentos de Cem anos de solidão? E, mesmo se não tivermos atravessado selva alguma, a cada releitura, continuaremos revivendo o instante em que, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria o dia em que seu pai o levou para conhecer o gelo…
(Adriano Lobão Aragão
lobaoaragao@gmail.com / adrianolobao.blogspot.com )

Gabriel García Márquez

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