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Tuesday, 27 de July de 2021 Rss
27 Apr

As crianças mais inteligentes do mundo (II) – A Finlândia

As crianças mais inteligentes do mundo (II) – A Finlândia

Conforme publicação anterior, prometi retomar alguns aspectos da obra de Amanda Ripley, As crianças mais inteligentes do mundo e como elas chegaram lá.

Hoje, vamos falar um pouco da educação na Finlândia, de acordo com as pesquisas de Ripley e com os relatos da estudante americana Kim, que passou cerca de um ano em intercâmbio numa escola finlandesa.

Resultados da prova de leitura no primeiro exame do Pisa, em 2000.

Resultados da prova de leitura no primeiro exame do Pisa, em 2000.

A primeira coisa a destacar é que a Finlândia nem sempre esteve no topo dos países que melhor educam seus estudantes. Até a década de 1970, as escolas finlandesas eram mais ou menos como são muitas das escolas brasileiras ou norte-americanas hoje, marcadas por tradicionalismo, conservadorismo, burocratismo e falta de seletividade na formação e na contratação de professores.                                  

A revolução na educação finlandesa começou com a formação de professores nas universidades. Nesse país, o aluno que deseja ser professor faz essa opção já na universidade e passa por uma seleção rigorosa. Diz Amanda Ripley:

“Na Finlândia, todas as faculdades de educação eram seletivas. Lá, entrar em um programa de formação de professores era algo prestigioso, o equivalente a, nos Estados Unidos, conseguir uma vaga numa escola de medicina. O rigor começava já no início, na hora de ingressar na carreira – que é o momento certo –, e não após anos exercendo a profissão com complexos sistemas de avaliação criados com o intuito de extirpar os piores profissionais e destinados a desmoralizar todos os demais.” (p. 135)

Mas, para conseguir uma vaga em educação, é necessário naquele país estar entre os 20 ou 30% melhores alunos da universidade, o que torna o magistério uma profissão prestigiada e bem-paga.

Os salários dos professores finlandeses, embora não sejam os maiores do mundo (os maiores salários estão entre os espanhóis), figuram entre os melhores salários do país, ao lado de engenheiros, médicos, profissionais de TI e outros. Ou seja, para educar as crianças e jovens, são contratados profissionais de altíssimo padrão, na verdade o que o país tem de melhor para essa missão, que é de suma importância, já que se propõe a formar seres humanos.

A própria Amanda Ripley explica:

“[…] a Finlândia estava desesperada para se modernizar, e os líderes da nação concordaram que a educação era a única coisa capaz de evitar que o país ficasse para trás. Quanto mais eu lia sobre o tema e conversava com os finlandeses que entendiam do assunto, mais admirava o bom-senso que permeava a história. Os finlandeses haviam concluído que a única maneira de encarar com seriedade a educação era selecionar professores da mais sólida formação acadêmica, os melhores e mais brilhantes de cada geração, e submetê-los a um rigoroso treinamento. E foi o que fizeram. Era uma estratégia obviamente radical que poucos países haviam tentado colocar em prática.” (p. 140-1).

As transformações na educação finlandesa começaram a ser sentidas nas décadas de 1980 e 1990. O nível de ensino chegou a um patamar tão alto, que já não era necessária uma intervenção tão forte do governo federal, e as escolas passaram a tomar decisões próprias, entre elas a análise e a escolha de livros didáticos, tarefa que antes era feita por técnicos do governo.  A formação acadêmica robusta dos professores exigia uma escola mais autônoma, mais independente e menos burocratizada.

Evidentemente, há outros fatores que colaboram para o sucesso da educação finlandesa. Entre eles, está a participação dos pais no processo escolar. A relação dos pais para com os professores e a escola é de respeito e de colaboração. Não o tipo de colaboração que muitos de nós conhecemos no Brasil, como participar de festas juninas ou de fazer a lição de casa junto com os filhos. Mas a colaboração de disseminar em casa valores e atitudes positivas em relação à educação, o compromisso de ler livros para os filhos quando são pequenos, de respeitar os momentos em que eles precisam estar concentrados em seus afazeres, de cobrar deles rigor escolar, sem, contudo, cair nos excessos praticados na Coreia.

Na próxima publicação, falaremos desse outro grande sucesso nas provas do Pisa, a Coreia do Sul.

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