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Sunday, 9 de May de 2021 Rss
11 May

As crianças mais inteligentes do mundo (III) – A Coreia – Parem de estudar, a polícia vem aí!

As crianças mais inteligentes do mundo (III) – A Coreia – Parem de estudar, a polícia vem aí!

A Coreia é outro país cujos alunos vêm se destacando no Pisa, desde o ano 2000. Se compararmos a educação finlandesa com a educação coreana, notaremos que elas têm alguns aspectos comuns, contudo as diferenças são muito profundas.

Na Coreia, existem algumas conceituadas universidades públicas que são a porta de entrada para o sucesso. Conseguir ser aprovado no vestibular de uma dessas instituições equivale a não ter de se preocupar nunca mais com emprego e salário, pois esses profissionais são os mais procurados e valorizados no mercado de todo o país.

Por essa razão, criou-se ali a mentalidade de que as crianças e os jovens precisam levar a sério os estudos, pois, em alguns casos, não apenas o futuro daquele jovem está em jogo, mas o futuro da própria família. Assim, o esforço para que o jovem ingresse numa dessas instituições não é apenas individual, mas familiar. Os pais acompanham as lições, estudam com os filhos e fazem horas extras no trabalho para poder oferecer a eles aulas particulares e cursos preparatórios complementares. Assim, o sucesso de um jovem no vestibular é sinônimo de uma educação rígida e de uma família unida e focada em seus objetivos.

Créditos: Thinkstock/Getty Images

Créditos: Thinkstock/Getty Images

A rotina de um jovem coreano é mais ou menos esta: depois de passar o dia inteiro na escola, assistindo às aulas, no final da tarde ele se prepara para começar o terceiro turno de estudos do dia no hagwon, ou seja, um curso preparatório particular, mais ou menos como os cursinhos que temos no Brasil. As aulas se estendem até meia-noite e só não vão além disso porque, diante dos exageros a que são submetidos os jovens coreanos, o governo teve de intervir, proibindo que as aulas ultrapassem esse horário. E, para controlar o cumprimento dessa norma, por mais absurdo que pareça, a polícia faz semanalmente rondas e batidas noturnas, mandando os jovens irem para casa dormir e fechando cursos e prendendo proprietários de cursinhos infratores!

No magistério, os melhores professores são ferozmente disputados pelos cursinhos e ganham salários altíssimos. Esses “professores astros” se negam a dar aulas nas escolas públicas regulares e empreendem uma carreira solo, de forma independente, sem contrato de exclusividade. O valor de uma aula varia de acordo com o número de alunos que um professor consegue pôr em sua sala de aula, dos comentários positivos que recebe de alunos e pais na Internet, e assim por diante.

O caso mais notório do estrelato de professores é o do professor Andrew Kim, que, em 2010, ganhou 4 milhões de dólares e construiu um império educacional, dando aulas de Inglês ­on-line, ao preço de 3,5 dólares a hora por aluno.

A Coreia é conhecida pelo alto número de suicídios. De fato, muitos deles acontecem nessa fase em que o jovem está sob forte pressão familiar e social para que consiga entrar na universidade. Contudo, o maior índice de suicídios ocorre entre universitários e profissionais, ou seja, de gente que já passou por tudo isso e, mesmo assim, parece que se frustra quando chega à posição mais almejada do país.

Como se vê, a educação na Coreia é levada muitíssimo a sério, mas de uma forma complicada, que não me parece ser a saída para o Brasil. É verdade que valorizar os estudos e o trabalho dos professores é uma boa perspectiva para todos, mas impor uma cultura altamente competitiva e submeter os jovens a uma longa jornada de tortura pedagógica são um custo muito alto para qualquer ser humano e qualquer sociedade.

Uma vez que o sucesso dos estudantes depende basicamente de sacrifícios desumanos e da força econômica da família, que pode pagar as melhores hagwons, não fica difícil notar que o sucesso da Coreia em educação representa, na verdade, um grande fracasso: fracasso das políticas públicas de ensino e das escolas públicas. De certa forma, um quadro que também temos no Brasil, já que os estudantes que alcançam as vagas mais disputadas nas universidades públicas vêm das escolas particulares.

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