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Monday, 2 de August de 2021 Rss
04 Feb

As literaturas africanas de língua portuguesa na sala de aula

As literaturas africanas de língua portuguesa na sala de aula

Contos africanos

É lei há muitos anos! A lei 10.639, de 2003, tornou obrigatório o ensino de cultura africana e afro-brasileira nas escolas públicas e privadas do país. Apesar dos 13 anos que lá se vão, do meu ponto de vista ainda pouco se fez nesse terreno.

A maior dificuldade, a meu ver, tem sido a falta de acesso dos professores de língua portuguesa e literatura a um material adequado para as aulas.

Eu mesmo, como autor didático, enfrentei muitas dificuldades para encontrar publicações brasileiras ou  portuguesas de literaturas africanas de língua portuguesa, a fim de incluir textos africanos em minhas obras didáticas.

Além da dificuldade de chegar aos livros, muitas vezes os textos são longos, de difícil recorte para um livro didático ou para o espaço de uma aula; às vezes, são textos muito ligados à cultura, às tradições e à história local e de difícil contextualização para a criança e o jovem brasileiros; às vezes, ainda, textos que apresentam um grande número de palavras provenientes de línguas africanas locais, sem um glossário auxiliar. Essas dificuldades, juntas, têm dificultado o cumprimento da lei de 2003.

Apesar disso, iniciativas positivas podem acelerar o processo, como a publicação do livro Contos africanos dos países de língua portuguesa, organizado por Rita Chaves, professora de literaturas de língua portuguesa da USP, que integra a tradicional coleção Para Gostar de Ler, da Editora Ática.

O livro é composto por dez contos, de ótimos autores, como Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa, Mia Couto e o jovem escritor angolano Ondjaki. São textos relativamente curtos e alguns deles, inclusive, podem ser lidos e discutidos no tempo de uma aula.  Em cada conto, há notas de rodapé, resolvendo problemas de variação linguística ou trazendo informações sobre o contexto. Ao final da obra, há uma espécie de apêndice intitulado “A mesma língua, outro continente, diversos países”, que reúne informações básicas sobre cada um dos países africanos de língua portuguesa, incluindo seu processo de independência política na década de 1970. Enfim, uma edição adequadíssima para estudantes do ensino fundamental II e ensino médio.

Mais do que o simples cumprimento da lei, acredito que contemplar textos desses povos irmãos em nossas aulas pode enriquecê-las muito. Afinal, o Brasil tem, além da língua comum, uma história parecida com a desses países. Nossa Independência ocorreu 150 anos antes da deles e aprendemos mais cedo a lidar com várias questões vitais, entre elas a da identidade cultural e linguística. Os povos africanos de língua portuguesa admiram e amam o Brasil e esperam de seu irmão mais velho o reconhecimento de nossa irmandade.

Espero que outras publicações desse tipo sejam lançadas no mercado editorial. Porém ainda faltam, a meu ver, publicações específicas de autores negros brasileiros que tomem a negritude como tema. As poucas publicações com que tive contato ou de que tive notícia são raras, muitas delas esgotadas e de difícil acesso. Fica aí a dica para as editoras à procura de novos autores e livros.

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