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Tuesday, 27 de July de 2021 Rss
21 Oct

Base Nacional Comum Curricular – Qual é o espaço da literatura no ensino médio?

Base Nacional Comum Curricular – Qual é o espaço da literatura no ensino médio?

Créditos: Thinkstock/Getty Images

Créditos: Thinkstock/Getty Images

A Base Nacional Comum Curricular está propondo uma mudança profunda na parte de literatura, no Ensino Médio, que pode ter consequências bastante graves.

Primeiramente, o documento propõe uma inversão da sequência literária, isto é, a ideia é iniciar no 1º ano o estudo da literatura contemporânea; o 2º ano se dedicaria aos séculos XIX e XX; e finalmente o 3º ano cuidaria da literatura dos séculos XVIII, XVII e XVI.

A primeira pergunta que se deve fazer é: o que é o contemporâneo? O documento chama de contemporâneos apenas os autores que surgiram no  século XXI, ou os que estão vivos, ou, como faz parte da crítica, os autores que produziram a partir da década de 1960? Como se vê, o conceito é bastante relativo e não está claro na Base Nacional.

A inversão dos movimentos literários tem uma finalidade clara: permitir uma recepção mais fácil dos textos, uma vez que o estudante mais velho supostamente estaria mais maduro e preparado para lidar com os textos historicamente mais distantes (como os da Literatura de Informação, do Barroco e do Arcadismo). Essa suposta facilidade, entretanto, é relativa, uma vez que alguns textos e autores do século XX, como o regionalismo de Guimarães Rosa, a narrativa epifânica de Clarice Lispector e a linguagem-objeto de João Cabral são igualmente difíceis, se não mais difíceis, para os estudantes do 1º ou do 2º ano. O que é mais fácil: ler um fragmento da Carta de Caminha ou um conto epifânico de Clarice Lispector?

Além disso, a inversão da sequência literária traz outras dificuldades. Como a literatura segue um movimento de ruptura e tradição, fica difícil situar contra o quê cada movimento se coloca, pois ainda não teria sido estudado. Vamos ver um exemplo: ao estudarmos o Modernismo, no 2º ano,  como se faria para perceber a ironia e a crítica modernistas em Macunaíma, de Mário de Andrade, sem que o aluno tenha conhecimento do artificialismo e do purismo do Parnasianismo? As relações de ruptura com esse movimento, portanto, cairiam no vazio.

Outro ponto que chama a atenção no documento é a extensão do conteúdo: ao deslocar para o 2º ano toda a produção literária do século XX e do século XIX, há um acúmulo de autores, obras e informações. Estariam no mesmo ano os autores mais importantes de nossa literatura: João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Monteiro Lobato, Augusto dos Anjos, Cruz e Souza, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Olavo Bilac, José de Alencar, Gonçalves Dias, Castro Alves, Álvares de Azevedo. Isso para ficar somente com os autores do primeiro escalão. O tratamento desses autores seria extremamente superficial. Além disso, o estudo comparado desses autores com a literatura contemporânea (que é o que se pede, sempre) impediria ainda mais um estudo aprofundado de cada um dos autores.

Outro ponto gritante do documento é: por que a literatura portuguesa foi completamente suprimida, tendo em vista que autores como Fernando Pessoa e Camões são referências essenciais não apenas para a literatura brasileira, mas também para toda as literaturas africanas de língua portuguesa?

O documento cita genericamente a necessidade de se trabalhar com literatura africana de língua portuguesa e com literatura indígena. Que conteúdos (autores e/ou obras) devem ser trabalhados?

Como se vê, a proposta do documento é vaga e autoritária. Rompe com uma longa tradição de historiografia literária e com a formação de professores e propõe uma mudança sem nenhuma base teórica, sem tradição em sala de aula, e sem saber se o que se propõe vai ou não dar certo. Parece que está mais em jogo a necessidade de fazer uma proposta diferente do que propriamente uma preocupação com a formação cultural do estudante ou com a sua proficiência como leitor literário. Dê sua opinião, participe!

      

            

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