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Wednesday, 28 de July de 2021 Rss
01 Jul

Como criar uma sequência didática de produção textual com gêneros?

Como criar uma sequência didática de produção textual com gêneros?

Em encontros com professores, é comum me perguntarem por que, em nossas obras, determinados gêneros são trabalhados em certos anos, e não em outros.

Antes de comentar esse tipo de pergunta, gostaria de lembrar que, num passado mais ou menos recente, as escolas trabalhavam em produção o tripé narração-descrição-dissertação. A narração era trabalhada até a metade da 7ª série (hoje, 8º ano), quando então entrava a dissertação, que se estendia até o final da 8ª série. E, no ensino médio, o aluno tornava a ver narração no 1º ano e em metade do 2º ano, para depois disso se dedicar à dissertação, que se estendia até o final do ensino médio, a fim de se preparar para os vestibulares.

A proposta de produção de textos a partir dos gêneros do discurso, que, por influência dos Parâmetros Curriculares, chegou com força às escolas no início do novo milênio, rompendo com a tradição centenária do narrar, descrever e dissertar, propunha um trabalho de produção textual que aproximasse as práticas escolares das práticas sociais de linguagem. Tratava-se de uma concepção bakhtiniana de linguagem, que pressupunha que a linguagem ocorre em situações concretas de interação verbal.

Um grupo da Universidade de Genebra, liderado por Bernard Schneuwly e Joaquim Dolz, baseado nas ideias de Bakhtin, formula uma proposta de ensino de língua e de produção textual a partir dos gêneros do discurso. Partindo do princípio de que era necessário romper com essa tradição, o grupo propõe um trabalho com os gêneros em espiral. O princípio organizador são as capacidades.

Levando em conta a esfera de circulação social dos gêneros e as capacidades de linguagem que eles mobilizam, o grupo propõe uma tipologia de gêneros que leve em conta o desenvolvimento das capacidades.

Assim, em vez de o aluno trabalhar apenas a narração durante anos para só então estudar a dissertação, o grupo propõe que o aluno trabalhe gêneros narrativos em todos os anos. Porém, em cada ano, são tomados gêneros diferentes, de modo que, ao longo da vida escolar, o aluno conheça e produza um bom número de gêneros narrativos, como o conto maravilhoso, a fábula, a lenda, o mito, a história em quadrinhos, a anedota, os diferentes tipos de crônica, os diferentes tipos de conto, etc.

Assim, a capacidade de narrar passa a ser explorada pela espiral, gradativamente, partindo dos gêneros mais simples para os mais complexos; além disso, de gêneros que veiculam temas mais próximos da criança, como o conto maravilhoso no ensino fundamental I, por exemplo, até chegar a gêneros mais complexos e mais de acordo com o universo de interesse do adolescente, como o conto fantástico ou o roteiro de cinema, no ensino médio.

Ao lado da capacidade de narrar, há outras, que também precisam ser exploradas: relatar, argumentar, expor e descrever ações. A proposta é que todas elas sejam trabalhadas simultaneamente, ou seja, em cada ano diferentes capacidades sejam exploradas por meio de diferentes gêneros. E é claro que, para fazer isso, não podemos fazer uma disposição qualquer dos gêneros.

Certa vez, numa escola, uma professora me perguntou por que não tínhamos colocado o trabalho com o poema no 5º ano, pois ela adorava trabalhar o gênero poema. Imediatamente, outra professora disse que queria o poema no 3º, pois também gostava do poema. E a proposta, em nossa coleção, era trabalhar no 2º ano…

Procurei mostrar a elas que até podiam fazer substituições no trabalho que atendessem a preferências pessoais ou a certas necessidades (como no caso de realização de projetos da escola), mas que deviam levar em conta as capacidades em jogo, caso contrário poderiam provocar um acúmulo de gêneros de uma única capacidade num ano, em detrimento de outras, que não seriam trabalhadas naquele ano.

Em nossas obras – Português: linguagens, Todos os textos e Texto e interação –, apresentamos uma proposta de distribuição de gêneros e sequência didática que leva em conta esses princípios. Apesar disso, o professor não deve se sentir engessado. Ele pode, é claro, fazer mudanças na sequência didática. Contudo, sugerimos que leve em conta a necessidade de trabalhar com todas as capacidades de linguagem.

Assim, ele poderá trocar, por exemplo, sem nenhum prejuízo, um conto por uma lenda, ou um relato pessoal por um relato de viagem, ou um verbete de curiosidades por um verbete de enciclopédia. Claro que sempre observando a adequação do tema e da linguagem de cada tema à faixa etária de seus alunos.

No quadro a seguir, fica mais claro como os gêneros estão distribuídos de acordo com as capacidades de linguagem dominantes. No próximo post, retomaremos o assunto.

Gêneros orais e escritos

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