Blog do Cereja


Wednesday, 20 de October de 2021 Rss
06 May

Documento sobre educação

No contexto das discussões sobre qualidade de ensino, eis que o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, publica no jornal um importante texto a respeito do que é necessário para que o nosso país melhore a educação. O documento é importante não apenas por vir de um membro do governo, mas também porque detalha alguns aspectos que normalmente passam ao largo dos documentos oficiais como Enem, Prova Brasil, etc., como a preparação do diretor escolar, a abrangência do currículo, a carreira de professores, etc. Conheça o texto:

EDUCAÇÃO: TREZE QUESTÕES INCONVENIENTES E DECISIVAS PARA O FUTURO DO BRASIL

1.    Vamos ou não vamos criar mecanismos para redistribuir recursos, destinados ao financiamento da educação, de lugares mais ricos para lugares mais pobres?

2.    Vamos ou não vamos insistir que cada município e cada estado atinjam patamar mínimo de qualidade no ensino básico de acordo com o princípio de que a qualidade da educação que um jovem recebe não deve depender do acaso do lugar onde ele nasce? E, portanto, vamos ou não vamos lançar mão de procedimentos corretivos dentro da Federação quando tal patamar deixar de ser alcançado?

3.    Vamos ou não vamos subordinar foco em conteúdos — o enciclopedismo raso — a foco em capacitações analíticas, sobretudo as habilidades centrais de interpretação de texto e de raciocínio lógico? E encarnar o currículo em protocolos e exemplos à disposição dos professores?

4.    Vamos ou não vamos preferir, no desenho do currículo, profundidade a abrangência? E negar-nos a substituir a enciclopédia grande por enciclopédia pequena (conteúdos consagrados)?

5.    Vamos ou não vamos organizar o ensino na base de práticas de cooperação, abraçadas por equipes de alunos e de mestres, e livrar-nos da combinação de individualismo e autoritarismo na sala de aula?

6.    Vamos ou não vamos trabalhar para que todos os estudantes, independentemente de origem social, adquiram a autodisciplina que educação de qualidade requer? E fortalecer, a serviço deste objetivo, o vínculo entre escola e família?

7.    Vamos ou não vamos permitir a individualização do ensino e oferecer oportunidades especiais a alunos com maior dificuldade ou com talentos extraordinários? E, por conseguinte, vamos ou não vamos sacudir a mediocridade e recusar-nos a confundir igualdade com nivelamento?

8.    Vamos ou não vamos oferecer aos professores oportunidades para qualificar-se, periodicamente, em meio de carreira?

9.    Vamos ou não vamos exigir padrões de desempenho das faculdades, inclusive das privadas, que formam nossos docentes?

10.    Vamos ou não vamos propor aos estados federados diretrizes de carreira nacional de professor?

11.    Vamos ou não vamos cuidar para que cada diretor de escola, independentemente do processo pelo qual for escolhido, seja preparado e certificado para desempenhar sua tarefa?

12.    Vamos ou não vamos usar tecnologias contemporâneas, como aulas em vídeo e softwares interativos, para complementar o ensino presencial e enriquecer o ensino com a inspiração vinda de longe?

13.    Vamos ou não vamos substituir a uniformidade desorganizada — que prevalece agora na educação brasileira — por diversidade organizada — sistema nacional de ensino que permita práticas divergentes e seja capaz de experimentar e evoluir?

A resposta que convém dar a cada uma destas trezes questões é SIM. De repetir este sim treze vezes e atuar de acordo, com desassombro, audácia e imaginação, depende o futuro do Brasil.

                                                                                                                                                                                                                                           (O Globo, 28/4/2015.)

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