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Sunday, 9 de May de 2021 Rss
03 Feb

Enem e Pisa – o que está acontecendo com o país?

Enem e Pisa – o que está acontecendo com o país?

Créditos: Thinkstock/Getty Images

Créditos: Thinkstock/Getty Images

No mês de janeiro deste ano, a imprensa divulgou e comentou com voracidade os resultados do Enem 2014.  De 6,2 milhões de estudantes que fizeram o exame, apenas 250 conseguiram alcançar a nota máxima, com 1000 pontos. Por outro lado, 529.373 tiveram nota zero na redação e não poderão participar dos programas que aceitam a nota do Enem. Os piores resultados concentram-se na rede estadual de ensino, em todo o país.

Em abril de 2014, foram divulgados os resultados do PISA, no qual os jovens brasileiros, na prova de leitura, ficaram na 55ª posição do ranking de leitura, abaixo de países como Chile, Uruguai, Romênia e Tailândia. Segundo o relatório da OCDE, parte do mau desempenho do país pode ser explicada pela expansão de alunos de 15 anos na rede em séries defasadas. A análise do relatório mostra que quase metade (49,2%) dos alunos brasileiros não alcança o nível 2 de desempenho na avaliação que tem o nível 6 como teto. Isso significa que eles não são capazes de deduzir informações do texto, de estabelecer relações entre diferentes partes do texto e não conseguem compreender nuances da linguagem.

Quem vê esses dados de fora do universo escolar, certamente se surpreende e pergunta: o que está acontecendo com o país? Para quem é professor, entretanto, não é difícil compreender. São muitas as causas. Vamos lembrar apenas algumas delas.

Primeiramente, é preciso lembrar que o Enem deu visibilidade a uma enorme massa de estudantes que todos os anos saíam das escolas públicas e muitas vezes nem chegavam a prestar o vestibular, por não acreditarem em suas condições. Fazem parte desses 6,2 milhões tanto os que concluíram o ensino médio em 2014 quanto os que concluíram em anos anteriores e ainda hoje lutam por uma vaga em universidades públicas.

O segundo aspecto é a gritante necessidade de ser feita uma reforma no ensino médio, de modo a tornar os conteúdos mais coerentes com a realidade e com as necessidades do jovem e, assim, evitar a reprovação e a evasão escolar. A elaboração de um novo currículo já está sendo feita pelo MEC e esperamos que ele seja amplamente debatido pelos professores e por setores interessados da sociedade.

Em terceiro lugar, há de se rever o trabalho que está sendo feito pelos professores. Como são construídas as habilidades de leitura? Há um trabalho efetivo voltado para a formação do leitor, ou o foco do trabalho é apenas a história da literatura, com seus movimentos literários, gerações, características e autores, sem que o texto seja efetivamente lido, analisado e interpretado? Na parte de produção de textos, os alunos estão escrevendo efetivamente? Há um trabalho consistente com os gêneros argumentativos? Há oportunidade de, nas aulas,  ler textos de opinião, de debater assuntos polêmicos da atualidade, de negociar pontos de vista, de argumentar?

Por último, é premente a necessidade de ajustar os salários dos professores da rede pública, que, com o recente aumento, ganham o vergonhoso piso nacional de  R$ 1.917,78 por 40 horas. É impossível, com esse salário, ter uma vida cultural ativa, que envolva o consumo de bens culturais e tecnológicos, como cursos, equipamentos, livros, revistas, cinema, teatro, etc. Além disso, com uma carga horária elevada, é impossível o professor de Português proporcionar aulas e treinos constantes de produção de textos, sem que com isso ele perca todos os seus fins de semana fazendo avaliações. Há que se investir no professor, tanto em salários dignos quanto em formação e qualificação profissional.

Os exemplos de países como a Coreia e a China mostram que há saída, sim, para a educação, mas é preciso muito mais do que discursos vazios, incapazes de se transformar em “pátria educadora”. É preciso coragem política para mudar de verdade!

Nós, professores, temos consciência da função libertadora da educação e, mesmo em condições adversas, nos doamos para fazer o melhor possível. Mesmo assim, estamos prontos para novos desafios e torcemos para que eles não se transformem, mais uma vez, em simples figura de retórica de discursos de posse.

 

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