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Wednesday, 28 de July de 2021 Rss
28 Sep

Entrevista dada aos realizadores do Alfabetica – VI Congresso Brasileiro de Alfabetização, Letramento, Leitura e Produção de textos.

Entrevista dada aos realizadores do Alfabetica – VI Congresso Brasileiro de Alfabetização, Letramento, Leitura e Produção de textos

Alfabetica – O que mudou no ensino da língua portuguesa nos últimos anos quando falamos do ensino da língua?

William Cereja – Podemos dizer que a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, em 1997, foi um marco para o ensino de língua portuguesa. Desde então, as práticas de produção de texto deixaram de lado o tripé narrar-descrever-dissertar e abriram espaço para os gêneros do discurso. No campo da língua, o ensino da gramática normativa (principalmente a parte descritiva) perdeu prestígio e começou-se a valorizar o texto e a gramática contextualizada. Na parte de leitura, passou a haver uma ampla diversidade de textos e gêneros que antes não havia. Basicamente as leituras de sala de aula eram feitas a partir de crônicas, contos e poemas. Raramente se lia e debatia uma reportagem ou uma entrevista, por exemplo.

– O sr. defende que a produção de textos deve extrapolar o universo escolar e se aproximar do dia a dia fora da escola. De modo geral, a escola brasileira, em especial a pública, adota essa filosofia? 

Sim, sou totalmente favorável a essa perspectiva de ensino. Antes as práticas de produção textual eram muito escolarizadas, ou seja, o aluno escrevia em torno de um tema proposto pelo professor, mas não havia clareza sobre a função social daquele texto. O trabalho com os gêneros do discurso, proposto pelos PCN, visa dar fim justamente a essa prática cristalizada de produção textual, centrada na relação professor-texto-aluno, e trazer para o âmbito da sala de aula não apenas os textos que circulam na sociedade, mas também as práticas de produção textual que nela existem. Por exemplo, ao aprender o que é uma carta de leitor, uma carta de reclamação ou um abaixo-assinado, o estudante não apenas aprende como fazer textos desses gêneros, mas aprende também que o cidadão tem o direito de se expressar e de interferir na vida social. E interfere mesmo, ou seja, os alunos fazem abaixo-assinados em torno de reivindicações reais, enviam cartas de leitor para órgãos de imprensa, enviam cartas de reclamação ou de solicitação a autoridades, e assim por diante. Assim, para além da estrutura e da linguagem adequada para produzir um texto, o aluno conhece a função social dos gêneros e isso é maravilhoso. Isso está em perfeita sintonia com a perspectiva de letramento e cidadania. A escola brasileira de modo geral acolheu a proposta com os gêneros, mas, infelizmente, em algumas escolas as práticas continuam cristalizadas, ou seja, o aluno escreve uma reportagem ou um poema para o professor ler e avaliar, e não para publicar um jornal ou um livro de poemas, que seria o ideal.

– Essa tendência pressupõe a integração com outras disciplinas?

Não há dúvida. O trabalho com gêneros está permanentemente voltado para a vida social e, por isso, acaba sempre envolvendo questões históricas, sociológicas, midiáticas, etc. Como o trabalho de produção textual por gêneros implica o desenvolvimento de projetos, é comum haver interdisciplinaridade com Arte, História, Geografia, Ciências e Matemática.

– O que se espera em termos de habilidade e competência do aluno?

Em língua portuguesa, esperamos que o aluno seja um leitor competente, isto é, que consiga ler um texto de forma ampla – por exemplo, sendo capaz de fazer inferências e captar os implícitos; fazer relações entre o texto e outros textos; ser capaz de perceber sutilezas como ironia e o intertexto; ser capaz de perceber em que momento o autor do texto se posiciona diante do que diz; ser capaz de perceber o gênero em que o texto foi escrito e qual sua função social,  entre outras coisas . Espera-se que seja capaz de produzir qualquer tipo de texto, oral ou escrito, de forma adequada, considerando a situação de produção (o interlocutor, a finalidade, o gênero, etc.). Espera-se também que saiba usar a língua de forma adequada, isto é, uma língua que pode ser menos ou mais formal de acordo com a situação e com o gênero produzido.

– A competência da construção oral é contemplada nas escolas?

Muito pouco. A escola, que tem uma longa tradição centrada em textos escritos, ainda não valoriza plenamente o trabalho com a oralidade. Um exemplo é o pequeno espaço que se tem dado a gêneros orais como o debate regrado, o seminário, a discussão em grupo, a mesa-redonda, entre outros. O professor tem dificuldades de avaliar oralmente o aluno, e os pais têm a impressão de que a escola não está dando “redação”, pois não há nada escrito no caderno. Por isso, o mais fácil é propor uma produção escrita, o que é uma pena, pois nunca a fala pública foi tão valorizada na sociedade quanto nos dias de hoje. Nas empresas, nas universidades, em todo lugar a pessoa que fala bem publicamente – isto é, sabe expor com clareza ou é capaz de argumentar a respeito de um ponto de vista ou, ainda, é capaz de  negociar posições divergentes –  é mais valorizada socialmente. Por isso, a escola deve rever suas práticas e levar a sério o trabalho com os gêneros orais.

– Exames como vestibulares e o próprio Enem estão alinhados com essas novas habilidades?

Em parte. O Enem e alguns vestibulares têm deixado de lado a ênfase dada à memorização durante décadas e têm privilegiado questões que exigem a mobilização de várias habilidades. São as situações-problema, cuja solução exige habilidades de leitura (como identificar informações, inferir, levantar hipóteses, interpretar) e muitas outras, como relacionar um texto verbal a uma pintura ou uma tabela de dados, fazer uma operação matemática, e assim por diante. É a proposta de um ensino voltado para o “aprender a aprender”, a fim de que o aluno, mesmo após a universidade, continue aprendendo, seja no âmbito de sua disciplina, seja num âmbito multidisciplinar. Apesar disso, o Enem ainda solicita a dissertação na prova de redação, o que é completamente contraditório com o que o próprio MEC propõe em seus documentos oficiais, nos quais defende o trabalho com os gêneros do discurso.

– Hoje, não há como ignorar as consequências da comunicação em meios virtuais, como redes sociais e whatsapp. E, nesses meios, escrever o português correto, com frases bem construídas, até distancia o jovem do grupo. Por outro lado, abreviar palavras, usar fonemas e até mesmo emoticons é o que o torna parte do grupo. Como lidar com essa realidade em sala de aula?

As tecnologias vieram para ficar e participar delas, com a linguagem que lhes é peculiar, é uma necessidade para o jovem; é uma questão de identidade.

Não vejo nisso um problema. Tem de ficar claro para todos, professores e alunos, que a linguagem desses meios de comunicação é diferente da linguagem empregada em outras situações, gêneros e suportes. Cabe aos professores em geral (e não só ao de língua portuguesa) lembrar aos alunos a questão da (in)adequação da linguagem a todo momento. O que cabe numa mensagem do Whatsapp evidentemente não cabe num artigo de opinião ou num editorial.

– Isso pode limitar a capacidade e habilidade textual? Por exemplo, o uso frequente de emoticons pode limitar a capacidade de expressar textualmente os sentimentos, já que a imagem fala por si?

 Não acredito nisso. Até parece que, antes do boom da tecnologia, os jovens, em seu dia a dia, ficavam escrevendo textos maravilhosos, a qualquer momento. Isso não acontecia… Os jovens, em sua maioria, simplesmente não escreviam nada fora da escola, e agora passam horas do dia teclando no celular. Acredito que o desenvolvimento de habilidades de escrita ainda está fortemente vinculado ao trabalho que é feito na escola. A diversidade do uso da escrita que hoje existe só aumenta a responsabilidade dos professores de língua portuguesa, que precisam estar, por um lado, abertos ao uso da tecnologia e, por outro, ser firmes em mostrar que a linguagem de um texto pode estar inadequada àquela situação e àquele gênero.

 

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