Blog do Cereja


Wednesday, 27 de October de 2021 Rss
20 Jan

Entrevista Ético Atualiza

Que características você destaca como fundamentais para se expressar bem pela escrita? Quais são os principais desafios encontrados por quem busca um aprimoramento constante de seus textos?

O segredo para escrever bem está na permanente relação com a linguagem, isto é, para escrever bem é necessário ler e escrever frequentemente. Além disso, é necessário ser exigente com seu próprio texto, buscando as palavras mais adequadas e a melhor forma de dizer o que se pretende.

 

Há diferença entre escrever bem em uma redação de vestibular ou de concurso e no dia a dia? Que dicas você dá para quem está se preparando para essas provas?

Claro. Toda produção de texto, oral ou escrita, deve levar em conta a situação de produção, ou seja, quem é o interlocutor, qual é o gênero, qual é a finalidade do texto, qual é a linguagem mais adequada para aquele gênero e para o perfil do interlocutor, etc. Nos exames vestibulares e em outros concursos, o mais comum é avaliar o candidato por meio de uma dissertação escolar. Logo, é necessário que o estudante domine esse tipo de texto (sua estrutura, sua linguagem e a articulação de ideias) e aborde adequadamente o tema, posicionando-se de modo claro, com bons argumentos. E, para ter bons argumentos, voltamos ao ponto inicial, é necessário leitura.

 

Em uma escala de zero a 10, quanto você avalia que seja a importância de saber escrever bem?

Sem dúvida nenhuma: 10.

 

 Profissionalmente, o quanto melhora para quem se expressa bem ao escrever? Isso varia de acordo com a área profissional, se é de humanas, exatas ou biológicas, ou tem a mesma importância para todos? Quem escreve bem é valorizado?

Eu diria que escrever e falar bem fazem toda a diferença. Foi-se o tempo em que as empresas buscavam nas universidades os “geninhos” nota 10 para os seus quadros profissionais. Hoje, os profissionais mais cobiçados e mais bem sucedidos são os que conseguem se comunicar adequadamente com as pessoas, seja por meio da escrita, seja por meio da fala. O funcionário precisa saber se posicionar adequadamente numa reunião, saber negociar posições e pontos de vista. Num texto escrito não é diferente: precisa ser claro, convincente, simpático, não arrogante… Tudo isso requer certa intimidade com as palavras.

 

Quais são as principais dificuldades que os alunos dos ensinos fundamental e médio encontram ao escrever?

Eu citaria dois aspectos que ressaltam aos olhos: um é o domínio da língua escrita; o outro, a falta de ideias originais. No primeiro caso, muitos alunos ainda não dominam algumas regras básicas da língua: ortografia, acentuação, crase, concordância, etc. Quanto à falta de ideias, isso resulta da falta de leitura e outras vivências culturais, como ler livros, jornais e revistas, assistir a bons filmes e peças teatrais, ver bons programas de tevê, que levem à análise e reflexão sobre o nosso tempo, etc. Mas não se trata de sair por aí decorando regras de ortografia e concordância… O trabalho de produção textual deve passar, necessariamente, pela vivência de inúmeros gêneros textuais, nos quais a revisão gramatical é uma parte importante.

 

A tecnologia ajuda ou atrapalha nesse processo de desenvolvimento? Você acredita que os corretores ortográficos disponíveis em e-mails e softwares para processamento de textos fazem com que não haja mais uma preocupação em aprender a grafia das palavras ou observar a concordância de suas frases, por exemplo? Esse apoio tecnológico torna-se um vício e leva as pessoas a desaprender a escrever sozinhas?

A tecnologia não é nossa inimiga, ela está aí para nos ajudar. O fato de existirem recursos de correção textual nos computadores é ótimo. Antes éramos obrigados a consultar dicionários pesados para saber a grafia ou a regência mais adequada de um termo. Hoje o computador nos auxilia a identificar os problemas e, num clic, podemos estar consultando um dicionário especializado ou uma enciclopédia. Qual o problema nisso? Entretanto, isso não significa que vamos deixar de aprender, por exemplo, as regras de acentuação da língua ou alguns casos básicos de regência. Quanto mais você estiver preparado para escrever, com ou sem o uso da tecnologia, melhor. Além de tudo, é preciso lembrar que às vezes os corretores erram e precisamos estar preparados para lidar a dúvida.

 

De que forma a leitura pode ajudar a melhorar as técnicas de escrita? Esse aprendizado vem de qualquer tipo de livro, como os Best-Sellers que atraem mais os jovens, ou os clássicos da literatura ainda têm um peso maior?

Acredito muito na leitura de gêneros variados, ou seja, é preciso ter um vasto menu de leituras para melhorar o desempenho verbal como um todo. Desse modo, convém ler obras literárias (obras clássicas ou contemporâneas), mas também ler outros tipos de livros e textos como jornais, revistas semanais, e muita coisa boa que há no mercado. Só para dar um exemplo: Contardo Calligaris escreveu um belo livro sobre adolescência; Suzana Herculano Housel escreveu vários livros sobre neurociência; Rubem Alves, vários livros que envolvem filosofia e educação… Enfim, há livros no mercado, muitos de divulgação científica, que são acessíveis, interessantes e enriquecem bastante o repertório linguístico e cultural do estudante.

 

Quando algum aluno diz que não gosta de ler, que técnicas você utiliza para tentar fazê-lo mudar de opinião? É possível passar a se interessar pelos livros depois de mais velho ou este tem que ser um hábito adquirido já na infância?

A descoberta da leitura não é um passe de mágica. Ela resulta de um processo de vivências do estudante, que quase sempre envolve outras pessoas. Às vezes, a presença de um bom professor ou de um familiar próximo é determinante para o aluno vivenciar racional ou emocionalmente um texto e despertar para a leitura. Mas não creio que seja o único caminho nem que haja uma idade determinada para isso. A leitura se torna significativa para alguém quando esta pessoa percebe que, com a leitura, está melhorando como pessoa, como ser, e, por isso, não pode mais viver sem ela.

 

A correria dos dias de hoje, que traz a constante sensação de que não temos tempo para nada, se reflete também na escrita, cada vez mais abreviada, apressada. É raro ver alguém dedicar seu tempo para escrever uma longa carta, como se fazia antigamente. Você considera que isso seja prejudicial à língua ou o importante é exercitar a escrita, mesmo que seja em linguagem “internetês” ou em breves mensagens instantâneas?

Temos uma tendência a generalizar. O fato de as pessoas escreverem mensagens muito curtas nas redes sociais não significa que elas estejam escrevendo apenas esses tipos de textos. Em outras esferas sociais, como o trabalho e a escola, por exemplo, as necessidades são diferentes e os textos também são diferentes. Logo, o bom usuário da língua é aquele que está preparado tanto para twittar quanto para escrever uma carta de reclamação a uma autoridade ou uma carta aberta à população.

 

As redes sociais estimulam as pessoas a opinar sobre os mais variados temas, já que traz a sensação de liberdade para se dizer o que se pensa, com pouca censura. Porém, quase sempre é em curto espaço, especialmente quando se fala em twitter, que só permite textos de até 140 caracteres. De qualquer forma, você acha que são ferramentas importantes para desenvolver o senso crítico e diminuir a postura passiva diante dos fatos? Isso pode ajudar o estudante a estar preparado para discorrer sobre os temas cobrados nos vestibulares, por exemplo?

Não tenho dúvida de que sim. As recentes manifestações políticas no país são uma prova clara disso. O problema é que esse tipo de debate, limitado pela situação e pelo número de caracteres, não permite maior profundidade de argumentos. Mas ele cumpre um papel interessante, de despertar, de chamar a atenção. O ideal é que, depois dessa fase, as pessoas tenham outras oportunidades ― virtuais ou presenciais ― de aprofundar seus pontos de vista, com bons argumentos e com o tempo e o espaço que forem necessários.

 

Você foi influenciado por alguém a mergulhar no mundo da literatura ou seu amor pelos livros desenvolveu-se sozinho? A partir daí, como foi o caminho trilhado por você até decidir dar aulas de Português e escrever livros didáticos? Quando se deu conta de que era com isso que queria trabalhar?

Sim, fui fortemente influenciado por meu professor de Literatura do 2º ano do ensino médio. Mas era apaixonado por Matemática e fiquei um bom tempo dividido até me decidir por Letras. Ainda estudante universitário, me tornei revisor numa editora. Nunca tinha pensado em dar aulas antes, mas meu gosto pela literatura fez com que aceitasse um convite. Tornei-me professor e nunca mais deixei de ser. Escrever livros didáticos aconteceu quando recebi um convite de uma editora para primeiramente fazer leitura crítica de livros didáticos e, logo depois, para apresentar um projeto de obra didática. As coisas foram em frente e hoje me sinto as duas coisas: professor e autor didático.

 

Que dicas você dá para quem pretende trabalhar em áreas muito ligadas à língua portuguesa, como professores, tradutores, jornalistas e escritores? Você acha que a faculdade dá uma contribuição significativa à boa qualidade da escrita?

A primeira sugestão é fazer a melhor faculdade que há nessa área em sua cidade ou em seu Estado. Não deixe por menos. Às vezes é melhor  esperar um pouco e se preparar melhor para entrar na melhor universidade do que fazer uma faculdade de terceira categoria. Na universidade, sugiro se abrir para tudo o que ela oferece, e não ficar restrito ao seu curso. Numa boa universidade, é comum um estudante da área de Humanidades poder fazer disciplinas em Filosofia, em Sociologia, em História da Arte, Comunicações. Eu fiz um pouco de tudo isso e essa formação geral, agregada a um bom curso que fiz em Letras, me deu condição de alçar voos maiores, preparando-me para a vida profissional e, posteriormente, para continuar os estudos no mestrado e no doutorado.

Deixe o seu comentário

Seu email não será divulgado. Os campos obrigatórios estão marcados com *