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Monday, 2 de August de 2021 Rss
03 Nov

Escher e o desafio da lógica

Escher e o desafio da lógica

Escher

No último fim de semana, fui visitar a exposição “A magia de Escher”, a mais visitada no mundo em 2011. No Brasil, ela já passou por várias capitais brasileiras – Rio, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba – e ficará em São Paulo, no Shopping Iguatemi JK, até 23 de novembro, com entrada gratuita.

Primeiramente, achei muito interessante o fato de a exposição ocorrer dentro de um shopping center e atrair também pessoas que não têm o hábito de ir a museus e, em alguns casos, nem conheciam a obra de Escher.

O resultado é uma visita despojada, interativa, espontânea, com pessoas rindo muito, falando alto, tirando fotos e selfies, entrando num painel interativo e se divertindo, enfim, algo bem diferente do ambiente quase sacro dos museus. Acredito que, se Escher estivesse vivo, ele gostaria de ver o quanto sua arte ainda hoje é capaz de provocar as pessoas.

Sempre fui entusiasta das obras de Escher e, em nossas obras didáticas, são muitas as obras desse artista que utilizamos, seja para propor leituras, seja para conhecimento lúdico, apenas.

Pouca gente sabe, mas, antes de decidir fazer o vestibular para o curso de Linguística na Universidade, meu desejo era fazer Matemática. Era apaixonado por Matemática (influência do professor Matei, da escola pública Ceneart, onde fiz o ensino médio) e me saía melhor nessa disciplina do que em Português. Contudo, minha paixão pela literatura na hora H falou mais alto e acabei prestando o vestibular para o curso de Letras.

Minha experiência com a Matemática, entretanto, nunca foi inútil.  O desenvolvimento de uma sensibilidade e de uma intuição humanísticas no curso de Letras, no contato direto com a literatura e as artes em geral, casou bem com uma postura racional e lógica (por que não dizer “matemática”) que eu já trazia diante de muitas situações da vida e que mantive no trabalho com os textos. 

Gosto muito de assuntos relacionados à Matemática, principalmente quando a ela se ligam outras áreas do conhecimento, como a pintura. Tal relação eu descobri com encanto ao estudar a questão da perspectiva na pintura renascentista e também quando conheci a obra de Escher. As relações de lógica também estão presentes em muitos dos textos labirínticos de Borges, por exemplo.

Escher (1898-1972) é um artista holandês que, com seus trabalhos, procurou desafiar a lógica do mundo conhecido, produzindo imagens impressionantes e de efeitos surpreendentes a partir de estudos de geometria e de perspectiva. Parece que a todo momento ele nos diz mais ou menos o seguinte: “Você tem certeza de que está vendo isso? Então continue levando o seu olhar para o outro lado e depois responda à pergunta”. Não é sem motivo que os espectadores de suas obras riem o tempo todo, pois o riso, nesse caso, mais do que graça, é o reconhecimento de que o artista, naquela obra, nos desafiou e nos surpreendeu com uma lógica que não é a cartesiana.

Levando para outro plano, a vida também não seria assim? Também ela não depende do modo e da perspectiva com que vemos a realidade? Também ela, às vezes, não nos surpreende e nos desestrutura, até que possamos novamente reorganizar o nosso mundo a partir de uma lógica diferente, não conhecida nem prevista?

Composta de gravuras originais, de fac-símiles, desenhos e painéis interativos, a exposição “A magia de Escher” é pequena, mas vale a pena. Recomendo visitar sem pressa… e levar as crianças.

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