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Monday, 2 de August de 2021 Rss
08 Dec

Ferreira Gullar: “Mesmo que o pão seja caro e a liberdade pequena!”

Ferreira Gullar: “Mesmo que o pão seja caro e a liberdade pequena!”

Deixou-nos nesta semana um dos maiores poetas brasileiros: Ferreira Gullar. Maranhense, mudou-se para o Rio para fazer sua vida literária e ali participou dos principais acontecimentos culturais do país dos últimos sessenta anos. Foi um intelectual completo, tendo uma profunda atuação como poeta, crítico de arte, dramaturgo e colunista em jornais. Na poesia, foi um dos nossos mais importantes poetas sociais, ao lado de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Thiago de Melo.

Ao lado da tríade paulista ― Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos ―, Gullar participou da fundação do movimento concretista e algum tempo depois criou, com Lygia Clark e Amílcar de Castro, o movimento de arte Neoconcreto, no Rio de Janeiro. Na poesia, rompeu com o verso discursivo, em sintonia com as experiências estéticas que vinham ocorrendo no final da década de 1950.

Durante o regime militar, voltou ao verso discursivo e cultivou uma poesia de resistência e combate à ditadura, chegando a viver no exílio. Dessa fase são as conhecidas obras Dentro da noite veloz e Poema sujo, este escrito em Buenos Aires.

Em entrevista exibida pela TV Cultura nesta semana, Gullar comenta que seu interesse pela literatura começou quando teve uma redação escolar elogiada pela professora de Português (vejam a importância que tem nossa disciplina na vida de muitas crianças!). Decidiu ser escritor e, a partir dali, começou a estudar as gramáticas, para poder aprimorar sua escrita. E foi nelas que teve seu primeiro contato com a poesia. Porém, os poemas que faziam parte desses compêndios eram todos parnasianos e, assim, os poemas de sua primeira safra também apresentavam um vocabulário e uma sintaxe típicos do século XIX.

Assim, a trajetória poética de Gullar reúne experiências estéticas de quase um século: inicia como poeta parnasiano, passa pela fase modernista, pela fase concreta e neoconcreta e pela poesia social até chegar às produções mais recentes, de que é exemplo a obra-prima Muitas vozes.

"Muitas Vozes - Poemas"
Reprodução/José Olympio Editora

Gullar também escreveu literatura infantil. O seu livro Um gato chamado Gatinho, por exemplo, publicado com belas ilustrações de Ângela Lago, tornou-se um clássico no meio.

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Reprodução/Ed. Salamandra

Ex-militante comunista, ultimamente Gullar vinha refletindo em suas crônicas publicadas aos domingos no jornal Folha de S. Paulo sobre o impasse ideológico do mundo contemporâneo: por um lado a decepção com a veia autoritária que muitos países socialistas adotaram, como Rússia, Cuba e China; por outro lado, a necessidade de o mundo capitalista globalizado continuar sonhando e alentando sonhos de uma sociedade mais justa.

Envolveu-se, recentemente, com temas polêmicos, como o governo do PT, o impeachment de Dilma, a corrupção no país, a liberação de drogas e até o ensino de língua portuguesa (sobre o qual, aliás, tinha uma visão bastante conservadora). Por isso, ganhou alguns inimigos em diferentes áreas.

Divergências à parte, é preciso reconhecer que Gullar foi um artista inquieto, irreverente e profundamente humano. Sua obra é simplesmente indispensável ao se pensar a cultura brasileira do século XX e de todos os tempos.

Foi-se Gullar, ficou sua obra. E, nela, pérolas como o poema “Dois e dois são quatro”, cujos versos finais são:

                        sei que dois e dois são quatro
                        sei que a vida vale a pena
                        mesmo que o pão seja caro
                        e a liberdade pequena.

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