Blog do Cereja


Tuesday, 27 de July de 2021 Rss
03 May

Marisa Lajolo e a celebração da amizade

Marisa Lajolo e a celebração da amizade

Marisa Lajolo

No feriado do dia 21 de abril, logo pela manhã, fui até a caixa de correio de minha casa e encontrei uma carta de verdade, endereçada a mim. Digo “carta de verdade” porque, com a presença marcante da tecnologia em nossas vidas, ninguém mais escreve cartas! E só recebemos pelo correio envelopes de banco, boletos e cobranças de todo tipo.

 O envelope era daqueles que trazem no canto esquerdo inferior as expressões “Via aérea/ Par avion” (engraçado o uso do francês ainda hoje, não?) e, no verso, lia-se que o remetente era Marisa Lajolo.

Sorvendo uma xícara de café, saboreei lentamente o prazer de abrir o envelope, datado de 19 de abril, e fiquei imaginando Marisa – uma pessoa tão ilustre e tão ocupada, pensando no ensino de literatura ou nos escritos de Monteiro Lobato ou de Olavo Bilac – perdendo tempo e indo até o correio para enviar uma carta, pegando fila, sendo atendida pelo funcionário, pagando pelo selo, quando tinha à mão tudo o que o mundo contemporâneo nos tem oferecido: telefone fixo, celular, e-mail, Facebook, Whatsapp…

Dentro do envelope, havia um cartão-postal gracioso, com ilustração de Eva Furnari. E, no verso, uma mensagem curta e singela, escrita à mão, que era assim:

            “Querido William,

            23 de abril: Dia Internacional do Livro. Celebro-o com este postal.

            Na carona, abraço maior.

                        Marisa”

Que delicadeza! Confesso que fiquei emocionado. A mensagem não teria o mesmo sabor se tivesse vindo por e-mail ou pelo Whatsapp. E ver a letra manualmente escrita de Marisa – uma pessoa dedicada à leitura, aos livros e à escrita – deu um sabor especial não apenas à mensagem, mas ao gesto.

Marisa quis compartilhar uma celebração com todos os que vivem em torno ou em função do livro. É apenas uma data simbólica, mas que nos lembra a todos que o livro é uma das razões de nossa existência. Por meio de livros, crescemos; em meio aos livros, vivemos; por meio de livros, ensinamos. Cada um de nós, professores, faz sua vida a partir dos livros.

Marisa compartilhou a celebração, sim, mas não foi com um mero clique do mouse na opção “Compartilhar”, como muitas vezes se faz nas redes sociais. Com seu gesto, manual e até primitivo, resgatou o sentido primeiro da escrita entre dois interlocutores: partilhar, interagir, transformar.

Esse fato me fez pensar que às vezes é preciso “desautomatizar” a vida que levamos e pensarmos nas coisas e nos gestos simples que fazem parte de nossa existência. Escrever ou receber uma mensagem como essa, ou receber um abraço, ou um simples telefonema podem ter um significado muito maior do que receber mil curtidas nas redes sociais. Por isso, compartilho essa experiência com vocês. Compartilho não apenas a celebração do livro, mas também a celebração da amizade sincera.

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