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Wednesday, 27 de October de 2021 Rss
24 Mar

O desafio do verso no oceano de linguagens e suportes

O desafio do verso no oceano de linguagens e suportes

Imagine que um editor pedisse a você que fizesse uma seleção da melhor poesia brasileira contemporânea. O que você faria? Que poetas entrariam em sua antologia? Que critérios você utilizaria para selecionar o material? Que categorias seriam utilizadas: moderno, pós-moderno, contemporâneo…?

Se levarmos em conta que os textos literários de hoje não se valem apenas da palavra, mas também da cor, do movimento e dos sons, se considerarmos a esfera digital, como reunir esse material fazendo uso apenas de uma antologia impressa?

Como se vê, não é uma tarefa fácil. Os desafios são colocados não apenas para os estudiosos da literatura, mas também para os escritores, cujo trabalho, nos dias de hoje, estão para além do “lutar com palavras”, como dizia Drummond.

É com base nessas reflexões que os convido a ler o belo artigo do escritor, professor e nosso assessor pedagógico no Piauí, Adriano Lobão Aragão.

Um oceano de versos e desafios

Ao prefaciar o volume da série “Roteiro da Poesia Brasileira”, dedicado aos anos 2000, o organizador da antologia, Marco Lucchesi, faz referência ao mitológico gigante Argos, possuidor de cem olhos (mantinha cinquenta deles abertos mesmo quando dormia), em alusão às dimensões da empreitada que buscou realizar: um mapeamento do que de mais significativo se tenha produzido (segundo o antologista, claro) sob a forma poética na referida década. Trata-se, com certeza, de um desafio imenso e, para além da antologia de Lucchesi, em contínua expansão, dificultando ainda mais a organização de outros mapeamentos futuros, em todos os sentidos. Em entrevista concedida recentemente à Folha de S. Paulo (23 de fevereiro de 2014), Alcir Pécora, professor de teoria literária da Unicamp, menciona que “a produção [literária contemporânea] é bem dispersiva e pouco marcante, em qualquer tendência que se observe. O que mais existe é, por assim dizer, um genérico de literatura, que se expande muito, em várias direções, inflaciona a vida de signos, mas não tem caráter decisivo como experiência ou como experimento”. Concordando ou não com o diagnóstico de Pécora, é certo que, atualmente, as inúmeras facilidades de editoração disponíveis, tais como sites, blogs, redes sociais, impressões sob demanda, revistas alternativas impressas e digitais, fanzines, ao mesmo tempo em que democratizam a divulgação de produções literárias, também contribuem para diluir o potencial expressivo quando tomado coletivamente, bem como dificultam bastante a descoberta de um autor mais significativo que (talvez) venha a surgir.

Na mesma entrevista, Alcir Pécora também aponta um caminho eficaz diante do impasse entre qualidade e quantidade de nossa produção literária: “o procedimento eficaz a ser adotado para favorecer a produção literária é a qualificação do sistema educacional do país. Pode não garantir nenhuma obra-prima, pois esta não tem explicação, nem cumpre hora marcada pra acontecer, mas é apenas a força do processo educacional que garante o peso relativo da cultura no país”. Nesse sentido, tão importante quanto o desenvolvimento das habilidades de escrita literária, temos a urgente necessidade de trabalhar a formação do leitor literário, de despertar no aluno uma visão crítico-estética tão necessária à leitura não apenas do texto literário, mas também das relações humanas e políticas (em sentido amplo) que nos circundam; e não há maior aprimoramento linguístico-cultural que se torna leitor crítico de si mesmo. Entretanto, até que possamos colher bons frutos dos esforços empreendidos, temos que conviver e aceitar o desafio imediato de navegar num imenso oceano de versos, alguns significativos ou não, quem sabe? Aos que mergulharem nesse mar-labirinto (professores, leitores, antologistas, editores, etc.), desejo muito discernimento e perseverança para encontrar e compartilhar o que de melhor possa estar sendo produzido nesse exato momento, onde quer que esteja, ainda que seja uma única flor, mas que, como no poema de Carlos Drummond de Andrade, seja possível furar “o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

(Adriano Lobão Aragão)

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