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Tuesday, 27 de July de 2021 Rss
24 Nov

O ensino da ortografia

O ensino da ortografia

A ortografia é fonte de preocupação dos professores em todos os níveis de ensino e, muitas vezes, é foco de tensão entre as escolas e as famílias, já que, para a sociedade, crianças que apresentam menos erros ortográficos em sua escrita supostamente estão recebendo um ensino de melhor qualidade nas escolas.

 

A questão é complexa e exige bom-senso e planejamento por parte dos professores e das escolas. Não se trata de massacrar as crianças com exercícios de fixação nem de menosprezar o problema, achando que ele se resolverá sozinho com o tempo.

 

Primeiramente, é preciso distinguir dois momentos distintos no processo de aprendizagem da escrita: a alfabetização e o estudo sistemático da ortografia.

 

A alfabetização é um processo que se inicia na educação infantil e, na maioria das escolas, se estende até o 2º ano ou o 3º ano, dependendo da escola e da expectativa dos professores e das famílias. Nesse momento, a criança precisa se apropriar do sistema de escrita alfabética, conhecendo suas regularidades e suas irregularidades.

 

É natural que, mesmo durante ou depois do 3º ano, ainda haja alguns  problemas ortográficos relacionados com a apropriação do sistema de escrita alfabética, tais como  o emprego inadequado de rr e de ss, o emprego de m ou de n antes de consoantes,  o emprego de h em início de palavras. O que já não é aceitável nesse momento, por exemplo, é que a criança ainda faça trocas de casos de regularidade, como, por exemplo, escrever  a palavra quente desta forma: cente. Se isso ocorre, é evidente que é preciso retomar o trabalho desde a fase inicial.

 

Porém, a partir do 3º e 4º anos, é natural que o trabalho com a ortografia deva continuar e se aprofundar cada vez mais, passando, por exemplo, por casos mais complexos como as diferentes letras que podem representar o fonema /Z/ (zê): z (azia), s (tesouro) e x (executar). Aprendizagens desse tipo são para toda a vida e ficam cada vez mais sofisticadas à medida que a criança/o jovem vai tendo um conhecimento mais aprofundado da língua.

 

Por exemplo, ao conhecer um pouco de morfologia, a criança fica sabendo que adjetivos terminados em -oso são sempre com s: bondoso, gostoso, cheiroso, etc. Da mesma forma, os substantivos abstratos terminados com o sufixo -eza são sempre escritos com z: beleza, fraqueza, franqueza, etc. Ou ainda, ao conhecer um pouco sobre etimologia, vai saber que as palavras indígenas são escritas com j quando apresentam o som de “gê”, como em pajé, canjica, jerimum, jiboia, etc.

 

Existem ainda regras sofisticadas, como a que determina que substantivos abstratos, derivados de verbos que conotam ação, sejam escritos com s: compreender > compreensão; apreender > apreensão.

 

Logo, os conhecimentos ortográficos ficam mais estruturados a partir do ensino fundamental II, quando o estudante tem contato mais aprofundado com a etimologia e a morfologia das palavras.

 

Por outro lado, há casos de ortografia que dependem apenas da memória. O que explicaria o fato de casa ser escrita com s e não com z? Não há uma explicação lógica, a não ser o fato de a palavra ser originária da forma latina casa. Assim, todas as formas derivadas de casa também serão com s, como casebre, casarão, etc.

 

Assim, é preciso ter claro que alfabetizar e ensinar ortografia são duas etapas distintas, com objetivos diferentes, mas que se complementam ao longo do processo escolar. O primeiro tem o compromisso de fazer a criança se apropriar do sistema de escrita alfabética, lendo e escrevendo, mesmo que restem algumas falhas ortográficas. O segundo tem o compromisso de aprimorar a escrita e, para isso, lança mão de diferentes recursos, que vão se sofisticando ao longo dos anos.

 

É preciso planejar o ensino de ortografia com seriedade, de forma vertical, levando em conta graus de complexidade e as regras existentes.

 

No Brasil, a maior autoridade no assunto é o professor Artur Gomes de Morais, professor da Universidade Federal de Pernambuco e autor das obras Ortografia: ensinar e aprender e de Sistema de escrita alfabética, cuja leitura recomendo.

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