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Monday, 2 de August de 2021 Rss
21 Jun

O ensino de gramática: entre a Linguística e a gramática normativa

O ensino de gramática entre a linguística e a gramática normativa

Os professores de língua portuguesa que ensinam gramática geralmente vivem um difícil dilema profissional: atender ao que recomenda a gramática normativa ou atender aos reclamos da Linguística em relação ao ensino de gramática na escola? E mais ainda: atender aos reclamos dos pais, que exigem nas escolas uma abordagem tradicional da gramática, exatamente como aprenderam no “seu tempo”, ou buscar um novo rumo de abordagem da língua, como tem apontado o Enem e outros exames oficiais?

Recentemente li um livro delicioso de Sírio Possenti: Língua na mídia (Parábola). Não é um lançamento; a edição da obra é de 2009, mas só agora o livro caiu em minhas mãos e tive um prazer imenso em lê-lo.

O livro é uma antologia de artigos que Sírio publicou num site da Internet e num jornal de Jundiaí. Os artigos, como o nome da obra sugere, refletem e discutem os comentários feitos na mídia por alguns especialistas, entre eles, claro, o professor Pasquale. O livro também reproduz uma polêmica com o professor Luiz Antonio Sacconi, autor da conhecida obra Não erre mais.

A obra me interessou muito e por isso decidi sugerir aqui essa leitura aos professores ― não para que, a partir dela, possamos aprender algo novo ou nos aperfeiçoar em alguma questão gramatical. Já conhecemos tanto as posições da gramática normativa quanto a posição dos linguistas. A obra me interessou do ponto de vista pedagógico, já que ela é toda construída a partir de contrapontos, ou seja, as polêmicas linguísticas de que Sírio Possenti participou.

A publicação reflete justamente o momento de transição que estamos vivendo há vários anos a respeito do ensino de língua portuguesa. Por um lado, temos uma gramática normativa, que é distanciada do português brasileiro real, falado ou escrito, e muito rígida em relação a diversos aspectos da língua. Por exemplo, regências clássicas como chegar a casa” ou “prefiro que você fique comigo a que vá com seu pai”, em vez de “chegar em casa” e “prefiro que você fique comigo do que vá com seu pai” já não são encontradas nem mesmo na fala ou na escrita de usuários da norma culta e, no entanto, elas continuam a ser ensinadas na escola como referência dessa norma.

Os professores de língua portuguesa, portanto, se veem numa situação difícil, pois ensinam uma norma do século XIX, que já não é encontrada nem em revistas e jornais nem na literatura contemporânea. Então nos perguntamos: se não ensinarmos, como ficam as cobranças da escola e dos pais em relação aos vestibulares, por exemplo?

Sírio Possenti, que também é autor de Por que (não) ensinar gramática na escola (Mercado de Letras) e que já se posicionou favoravelmente ao ensino de gramática, deixa claro em Língua na mídia que é contra a rigidez de certos gramáticos e gramáticas e também contra afirmações infundadas que alguns especialistas fazem na mídia. E, nesse aspecto, ele tem razão em vários pontos.

Contudo, como linguista, ele não está obrigado a prestar contas aos pais, nem a preparar os estudantes para diferentes exames, nem para produzir diferentes gêneros textuais ― entre eles aqueles nos quais a norma-padrão formal é exigida. E é bom que seja assim: da universidade, da academia, ele cumpre muito bem o seu papel de apontar incoerências e falhas tanto nos comentários feitos sobre a língua na mídia quanto no ensino de gramática na escola.

Para os professores de gramática, entretanto, a situação exige uma resposta mais concreta e imediata: por exemplo, o que vou fazer na aula de concordância verbal que terei de dar amanhã?  Vou trabalhar com variedades linguísticas distantes da norma-padrão para mostrar que na concordância de “Os home chegou” também existe uma regra? Ou vou ter de ensinar o que prescreve a norma-padrão ― “Os homens chegaram” ― e a concordância do verbo com o sujeito?

Discutir a lógica existente na concordância em “Os home chegou” e descrever muitos outros casos de variedades linguísticas desprestigiadas é uma tarefa que, do meu ponto de vista, cabe mais aos linguistas do que aos professores de língua portuguesa.

Claro que os professores de português podem e devem mostrar que há uma lógica em construções como essa, a fim de lembrar a diversidade existente no português e de combater o preconceito linguístico. Mas o que a escola, as famílias e as instituições de ensino superior esperam do professor é que ele ensine a norma culta, que a maioria dos estudantes não domina plenamente.

Mas, claro, isso não quer dizer que devamos cair no outro extremo, a de ensinar uma gramática normativa rígida e distanciada das práticas linguísticas concretas.

Neste momento de transição que estamos vivendo, penso que o mais sensato é o professor ter consciência de que é necessário ensinar a norma-padrão, sim, porém sem se fechar a outras variedades linguísticas e sem ter uma posição conservadora e elitista em relação a ela. E, ao mesmo tempo, fazer a crítica da gramática normativa, isto é, mostrar aos estudantes que algumas regras que ainda perduram estão completamente defasadas, embora ainda sejam exigidas em algumas situações formais de comunicação.

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