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Wednesday, 28 de July de 2021 Rss
08 Nov

O ensino de literatura na segunda versão da Base Nacional Comum Curricular

O ensino de literatura na segunda versão da Base Nacional Comum Curricular 

Pouco se sabe a respeito do que o MEC está fazendo em relação à Base Nacional Comum Curricular, principalmente em relação à Base do ensino médio, uma vez que, em paralelo, também se discute a reforma do ensino médio, que implicará mudanças estruturais.

A segunda versão da Base Nacional Comum Curricular não trouxe mudanças significativas, em relação à primeira versão, quanto ao ensino de literatura. Isso quer dizer que, em princípio, as propostas apresentadas na primeira versão devem continuar. Todos se lembram de que a primeira versão propunha uma mudança profunda na parte de literatura, no ensino médio.

Primeiramente, o documento propõe uma inversão da sequência literária, isto é, a ideia é iniciar no 1º ano o estudo da literatura contemporânea; o 2º ano se dedicaria aos séculos XIX e XX; e, finalmente, o 3º ano cuidaria da literatura dos séculos XVIII, XVII e XVI.

A primeira pergunta que se deve fazer é: o que é o contemporâneo? O documento chama de contemporâneos apenas os autores que surgiram no século XXI, ou os que estão vivos, ou, como faz parte da crítica, os autores que produziram a partir da década de 1960? O conceito é bastante relativo e não está claro nem para críticos literários nem para os que redigiram a Base Nacional.

A inversão dos movimentos literários tem uma finalidade clara: permitir uma recepção mais fácil dos textos, uma vez que o estudante mais velho suspostamente estaria mais maduro e preparado para lidar com os textos historicamente mais distantes (como os da Literatura de Informação, do Barroco e do Arcadismo). Essa suposta facilidade, entretanto, é relativa, uma vez que alguns textos e autores do século XX, como o regionalismo de Guimarães Rosa, a narrativa epifânica de Clarice Lispector e a linguagem-objeto de João Cabral, são igualmente difíceis, se não mais difíceis, para os estudantes do 1º ou do 2º ano. O que é mais fácil: ler um fragmento da Carta de Caminha ou um conto epifânico de Clarice Lispector?

Além disso, a inversão da sequência literária traz outras dificuldades. Como a literatura segue um movimento de ruptura e tradição, fica difícil situar contra o quê cada movimento se coloca, pois ainda não teria sido estudado. Vamos ver um exemplo: ao estudarmos o Modernismo, no 2º ano, como se faria para perceber a ironia e a crítica modernistas em Macunaíma, de Mário de Andrade, ou no poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira, sem que o aluno tenha conhecimento do artificialismo e do purismo do Parnasianismo? As relações de ruptura com esse movimento, portanto, cairiam no vazio.

Outro ponto, dos mais graves a meu ver, é a extensão do conteúdo: ao deslocar para o 2º ano toda a produção literária do século XXI e do século XIX, há um acúmulo de autores, obras e informações. Estariam no mesmo ano os autores mais importantes de nossa literatura: João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Cecília Meireles, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Monteiro Lobato, Augusto dos Anjos, Cruz e Souza, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Olavo Bilac, José de Alencar, Gonçalves Dias, Castro Alves, Álvares de Azevedo. Isso para ficar somente com os autores do primeiro escalão. O tratamento desses autores seria extremamente superficial. Além disso, o estudo comparado desses autores com a literatura contemporânea (que é o que se pede, sempre) impediria ainda mais um estudo aprofundado de cada um dos autores.

Outro ponto gritante do documento foi a supressão da literatura portuguesa, na primeira versão. Na segunda versão, entretanto, ela voltou a ganhar seu espaço. Porém, com a rigidez dos conteúdos de cada ano, entre os autores estudados no 2º ano, ainda teríamos de incluir Fernando Pessoa, José Saramago, Eça de Queirós e muitos outros.  

O documento cita genericamente a necessidade de se trabalhar com literatura africana de língua portuguesa e com literatura indígena. Que conteúdos (autores e/ou obras) devem ser trabalhados? Poderia ser indicada ao menos uma bibliografia básica de autores indígenas e africanos?

Como se vê, a proposta do documento é vaga e arbitrária. Rompe com uma longa tradição de historiografia literária e com a formação de professores e propõe uma mudança sem nenhuma base teórica, sem tradição em sala de aula, e sem saber se o que se propõe vai ou não dar certo. Parece que está mais em jogo a necessidade de fazer uma proposta diferente do que propriamente uma preocupação com a formação cultural do estudante ou com a sua proficiência como leitor literário.

Com a divisão do ensino médio em formação técnica e formação acadêmica ou integral, qual seria a carga horária de língua portuguesa nos dois cursos? O curso técnico teria um número menor de aulas? Que carga caberia ao ensino específico de literatura? A experiência na rede privada mostra que, em cursos técnicos, língua portuguesa não tem mais do que duas ou três aulas semanais para todas as frentes. Com essa carga, e com a quantidade de conteúdos que se avolumam, asseguro que vai ser impossível fazer um trabalho comprometido com a formação de leitores literários.

Precisamos retomar a discussão sobre o ensino de língua portuguesa no ensino médio e, dentro dessa discussão, avaliar o espaço que a literatura deve ter.

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