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Wednesday, 27 de October de 2021 Rss
23 Jan

O irmão alemão de Chico Buarque

O irmão alemão de Chico Buarque

O irmão alemão

Para todo fã das canções de Chico Buarque, é inevitável a seguinte pergunta: O que é melhor: a música ou a literatura de Chico?

Tive o privilégio de acompanhar toda a carreira de Chico Buarque, tanto a musical quanto a literária. Cheguei até mesmo a ler, na época, o romance inaugural Fazenda modelo e ver, no teatro, as inesquecíveis montagens de Calabar, com Marieta Severo e Elba Ramalho, Gota d’água, com Bibi Ferreira.

Do meu ponto de vista, o auge da carreira do compositor e escritor ocorreu nas décadas de 1970 e 1980, quando sua obra expressava com muito apuro o momento político e social que o país vivia. Apesar disso, nos anos seguintes, mesmo com certa irregularidade quanto à qualidade, o artista conseguiu realizar obras maravilhosas e únicas, tanto no universo da canção quanto no da literatura.

No campo da literatura, a impressão que me dá é que, com os anos, Chico melhorou seu texto literário, alinhando-se a certa tendência da literatura contemporânea com inclinação para a exploração psicológica de suas personagens, principalmente do protagonista, a partir da técnica do fluxo de consciência. Isso vinha ficando cada vez mais claro nos últimos quatro romances de Chico: Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003) e Leite derramado (2009).

Em O irmão alemão, publicado no final de 2014, Chico confirma essa filiação, mas navega por um caminho completamente diferente do das obras anteriores, misturando memória e ficção.

O protagonista da obra se chama Francisco de Hollander, professor de gramática e filho do intelectual Sérgio de Hollander. A trama da obra se articula em torno da descoberta, em cartas guardadas, de um filho que seu pai, ainda solteiro, teria tido na Europa com uma namorada alemã, antes da ascensão do nazismo.

Somos avisados, desde a contracapa, de que a obra se baseia num fato pessoal e verídico da família de Chico Buarque.  De acordo com a segunda capa do livro, consta que, na vida real, foi Manuel Bandeira quem contou a Chico Buarque (então com 22 anos), que o historiador Sérgio Buarque de Holanda, pai de Chico, tinha um meio-irmão na Alemanha.

Assim, a obra trabalha e mistura intencionalmente os planos de ficção e realidade e, como gênero, a narrativa oscila entre o relato familiar e o romance ficcional.  

Vivendo numa São Paulo dos anos 1960, o estudante e depois professor de gramática Francisco de Hollander vivencia os vários fatos políticos e culturais que marcaram o país e o mundo nesse momento, entre eles a ditadura militar, as perseguições políticas, os festivais da Record (dos quais o artista Chico Buarque participara), a prisão e o desaparecimento de seu irmão, etc. Os anos se sucedem até chegar ao nosso tempo.

A obra é rica como testemunho de duas épocas: os anos 1930 na Alemanha pré-Hitler, quando o pai do protagonista conhecera Anne Ernst, e as consequências da ascensão do nazismo na Alemanha, com perseguição aos judeus; e as últimas cinco décadas no Brasil, período em que o protagonista passa da juventude à velhice.

Também é um rico exemplo de metalinguagem, pois, em várias circunstâncias, o professor Francisco de Hollander pensa em escrever a história de seu meio-irmão alemão, que é justamente o que faz o escritor Chico Buarque.

Comparado aos romances anteriores de Chico, O irmão alemão não me parece ser o melhor. Contudo, é uma obra muito interessante para quem se interessa pela obra e pela vida de Chico, bem como pelos períodos históricos que ela retrata.

Do ponto de vista do ensino da literatura, recomendo-a como leitura extraclasse e creio que a obra possa ser trabalhada no ensino médio como exemplo de metalinguagem, como exemplo de mescla de gêneros literários e como exemplo do romance contemporâneo ou da literatura contemporânea. Além disso, pode também suscitar um ótimo trabalho interdisciplinar com a área de História.

 Boa leitura!

 

 

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