Blog do Cereja


Wednesday, 20 de October de 2021 Rss
06 Apr

O sal da Terra

O sal da Terra

O sal da Terra

Assisti, neste fim de semana, ao maravilhoso documentário O sal da Terra, de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado. O filme foi concebido e iniciado por Juliano, filho de Salgado, e mais tarde recebeu o reforço do fantástico cineasta alemão Wim Wenders. 

De certa forma, o filme é uma versão ampliada do livro Da minha terra à Terra, de Sebastião Salgado, já comentado neste blog. Se o livro já era uma narrativa deliciosa, que desvendava aos poucos a vida e a obra desse ser humano excepcional, o filme é um mergulho vertiginoso nesse conjunto, pois é o próprio Salgado que, na maior parte do tempo, conta sua história pessoal, desde suas  primeiras vivências em Minas, passando pelo exílio em Paris, até chegar a se tornar o grande fotógrafo social, conhecido e respeitado em todo o mundo.

O relato é acompanhado de farta documentação fotográfica e de alguns poucos vídeos que mostram tanto a vida pessoal de Salgado, com sua esposa e seus filhos, quanto a vida profissional do fotógrafo, em pleno campo de trabalho, no contexto de guerras, movimentos migratórios e outras tragédias humanas, que fazem parte de seu trabalho.

O mais interessante do filme, além das belíssimas imagens (algumas já vistas nos livros impressos) que vemos agora em movimento, é a contextualização delas. Salgado conta por que foi àquele local, qual era o seu projeto, como tirou a foto e o que aconteceu depois dela. Em certo momento, por exemplo, conta: “Esta foto registra o momento em que um pai chega com o filho nos braços a uma aldeia africana à procura de um médico, depois de passar horas caminhando na estrada. Quando foi atendido, a criança estava morta.”

É impossível não se emocionar com o filme, em virtude da violência humana, por um lado, e da indiferença do mundo, por outro.  E também por causa da sensibilidade fina de Salgado, da poesia e da beleza das imagens e das palavras, em vários momentos.

O filme também traz outras vozes: a do filho Juliano, que praticamente cresceu procurando entender o trabalho do pai ausente, e que agora se aventura com ele não apenas para compreender o pai que tem, mas também para registrar em linguagem cinematográfica como é o trabalho de um fotógrafo social. Também fala o cineasta Wim Wenders, que conta como entrou no projeto e fala de sua admiração pela obra de Salgado. E ainda de sua esposa, Lélia, que lhe deu apoio e suporte durante toda a vida.

Um momento marcante do filme é quando Salgado, depois de registrar as lutas tribais na África, que resultaram nos maiores movimentos migratórios da humanidade e no massacre de milhões de pessoas famintas, diz: “Eu adoeci. Não o meu corpo, mas minha alma ficou doente”. Salgado não suportou tanto sofrimento e desistiu de tudo. Não via mais sentido em seu trabalho. Não acreditava mais nos homens.

Felizmente, Lélia teve a ideia de desenvolver um projeto de reflorestamento na fazenda desmatada e inativa da família de Salgado. O replantio de árvores e o ressurgimento da vida naquelas terras trouxeram ao fotógrafo uma nova esperança de viver, um sentido diferente para a vida, que deu origem ao seu último projeto, Gênesis, que é a redescoberta do planeta, uma espécie de homenagem à parte viva e intocada da Terra.

Em sala de aula, o filme pode ser aproveitado para diferentes fins e em diferentes níveis de ensino: a partir do 6º ano, como objeto de leitura e interpretação de textos; em produção de textos, para discussão, análise e posterior produção de artigo de opinião, resenha crítica, editorial, texto dissertativo, etc. E pode ainda ser um rico material para aulas de Filosofia, de Sociologia, de História, de Ensino Religioso, de Cinema, entre outras áreas.

Salgado é uma dos seres humanos que mais admiro no mundo. Vida e obra se misturam nesse ser único, cheio de sentimentos como alteridade, solidariedade, justiça, amizade. Que bom que ele é brasileiro! Vejam o filme O sal da Terra! Levem a seus alunos uma boa dose de esperança, de humildade e de humanidade!

Na próxima semana, retomaremos a discussão em torno do livro As crianças mais inteligentes do mundo, de Amanda Ripley.

 

Deixe o seu comentário

Seu email não será divulgado. Os campos obrigatórios estão marcados com *