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Tuesday, 27 de July de 2021 Rss
06 Sep

O uso de publicidade em materiais didáticos e o PNLD 2020

O uso de publicidade em materiais didáticos e o PNLD 2020

O uso de publicidade em materiais para fins pedagógicos é um procedimento comum e amplamente utilizado nos estudos sobre a linguagem, tanto no universo acadêmico quanto no universo escolar.

Desde os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), no final da década de 1990, os documentos oficiais estimulam essa prática com a finalidade de explorar a questão da multissemiose da linguagem (a união do verbal e do não verbal: a imagem, os recursos gráficos, a diagramação, as cores, etc.) e expor os intuitos da publicidade de atrair e persuadir os interlocutores.

A respeito desse assunto, o documento oficial mais recente, a Base Nacional Comum Curricular, diz o seguinte:

“Como já destacado, além dos gêneros jornalísticos, também são considerados nesse campo os publicitários, estando previsto o tratamento de diferentes peças publicitárias, envolvidas em campanhas, para além do anúncio publicitário e a propaganda impressa, o que supõe habilidades para lidar com a multissemiose dos textos e com as várias mídias. Análise dos mecanismos e persuasão ganham destaque, o que também pode ajudar a promover um consumo consciente.

(BNCC, p. 137 – Língua Portuguesa no Ensino Fundamental – Anos Finais: Práticas de Linguagem, Objetos de Conhecimento e Habilidades)”

O Edital do PNLD se reporta constantemente à BNCC e, no tocante à publicidade, baseia-se no PARECER CEB número 15, que normatiza o uso de publicidade em livro didático. Diz o documento:

“o objeto de eventual presença de uma ou outra publicidade de produto ou marca identificados, em livros didáticos, deve visar a outros objetivos que não os comerciais e os lucrativos.” (p. 7.)

“o uso didático de imagens comerciais identificadas pode ser pertinente desde que faça parte de um contexto pedagógico mais amplo, conducente à apropriação crítica das múltiplas formas de linguagens presentes em nossa sociedade, submetido às determinações gerais da legislação nacional e às específicas da educação brasileira, com comparecimento módico e variado.” (p. 17) (destaques nosso)

O que a coleção Português: linguagens fez foi exatamente isso: trabalhou os anúncios de forma módica e contextualizada, sem nenhum objetivo comercial, o que pode ser facilmente notado.

Sem considerar essas possibilidades previstas no próprio Parecer CEB, a avaliação do PNLD, de forma dogmática, apontou como problemáticos nove textos publicitários. Seguem as ocorrências e alguns exemplos, com a paginação da obra disponível no mercado privado.

Volume 6, pág. 28 — Anúncio “Passeio sustentável” — com logotipo “borrado” de empresas apoiadoras.

Imagem do anúncio Pare pense mude
Volume 6, página 50 – Anúncio Cariocas X Paulistas sobre variação linguística.

Volume 6, página 103 – Anúncio sobre o Dia das Crianças e o Festival Food & Cart.

Volume 6, página 319 – Anúncio de campanha ambiental contra o plástico no mar.

Imagem do anúncio Mar não está para plástico

Volume 7, página 215 – Anúncio-convite ambiental da “Hora Planeta no Brasil” que visa à redução do consumo de energia elétrica.

Volume 8, página 94 – Erroneamente, o avaliador entende que seja anúncio publicitário uma releitura/paródia da pintura da Mona Lisa, do artista plástico contemporâneo Alex Gross, que faz uma crítica à sociedade de consumo.

Imagem do anúncio Mona Lisa

Volume 8, página 136 – No capítulo de fotorreportagem, apresentamos um painel de fotos que mostram a Black Friday nos Estados Unidos e, ao fundo, aparece o nome de uma dessas lojas (loja que nem existe no Brasil).

Imagem do anúncio Fororreportagem

Volume 8, página 112 – Foto de uma camiseta com um texto. Não é citada nenhuma marca da camiseta nem de qualquer outro produto. Trabalhamos o texto.

Volume 8, página 198 – Anúncio de valorização da figura do cosplayer (pessoa que vai a feiras e eventos vestida com roupas de super-heróis) e combate ao bullying contra ele. 

Não vamos aqui reproduzir todos os estudos feitos na obra, em virtude do tamanho, mas é fácil notar que, em todas as situações, não há nenhum compromisso com marcas de produtos ou empresas.

Vale, por fim, salientar que o parecer final, ciente de alguns dos erros cometidos, voltou atrás em alguns casos e, como conclusão, reprovou a coleção pela presença de 5 desses anúncios publicitários. Novamente, uma medida desproporcional, que desconsidera todo o trabalho proposto pelos estudos do livro, que visa à formação de um leitor capaz de interagir de forma crítica com textos de diferentes esferas de circulação social.

Na próxima postagem, publicaremos uma carta aberta em resposta ao parecer final enviado pelo MEC.

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