Blog do Cereja


Sunday, 9 de May de 2021 Rss
13 Aug

Palestras

Palestra: Ribeirão Preto

O ensino de gramática

Em Ribeirão Preto.

Encontro com os professores do Colégio Albert Sabin, em Ribeirão Preto.

Encontro com os professores do Colégio Albert Sabin, em Ribeirão Preto.

Na última semana, estive em Ribeirão Preto, onde participei de dois eventos: uma visita ao Liceu Albert Sabin e uma palestra para professores da rede oficial de ensino.

 Em ambos os eventos, ficou evidente como o ensino de gramática ainda é uma fonte de preocupação dos professores das escolas públicas e particulares. O que ensinar, como ensinar e com que destaque e tempo ensinar são algumas das questões que sempre se colocam nesses debates. Neste artigo e no próximo, gostaria de retomar alguns pontos dessas discussões.

Já faz algumas décadas que a Linguística chegou às universidades brasileiras e se integrou aos estudos de linguagem. Isso quer dizer que a absoluta maioria dos professores de língua portuguesa que estão ativos na vida profissional teve um contato mínimo que seja com essa área do conhecimento científico.

Entretanto, se fizermos uma retrospectiva e examinarmos o que de concreto mudou nas aulas de língua portuguesa das escolas de todo o país durante esse período, veremos que o saldo é muito pequeno. Sem alterações profundas na seleção dos conteúdos ou no modo de ensinar língua materna, talvez a principal mudança se restrinja à inclusão de meia dúzia de novos conceitos, oriundos da Linguística e/ou da Teoria da Comunicação, que passaram a integrar os programas escolares, principalmente os do Ensino Médio, como signo, significante, significado, emissor, receptor, funções da linguagem, polissemia, etc.

 Não é difícil compreender as razões desse fenômeno. Ao concluir o curso de Letras, o recém-formado professor de Língua Portuguesa ingressa no mercado de trabalho e passa a integrar uma estrutura de ensino — seja na rede pública, seja na rede particular — fortemente fincada na tradição, o que significa, no tocante ao ensino de língua, especificamente, uma adesão às práticas cristalizadas de ensino de gramática.

Tanto as teorias já consagradas da Linguística quanto as mais recentes pesquisas  no campo da linguagem com que o professor teve contato na universidade pouco contribuem para a sua prática escolar, posto que ele se sente intimidado ou até mesmo despreparado para, sozinho, afrontar uma tradição milenar de ensino de língua e suportar as pressões sociais de pais, diretores  de escolas, concursos vestibulares, etc.

De fato, a transposição de teorias científicas para o universo escolar não pode ser mecânica nem direta. Como consequência, dada a efemeridade e a luta das correntes científicas e ideológicas que atuam na Academia, a escola naturalmente opta pelo que está consagrado pela tradição. E, no que se refere ao ensino de língua, o consagrado é a gramática normativa (em seus aspectos descritivos e prescritivos), cujas raízes remontam à Antiguidade greco-latina. Como mudar uma tradição milenar de ensino de língua?

Ao longo das últimas décadas de estudos linguísticos, muitos foram os modelos teóricos que se sucederam, entre eles os da Linguística estrutural, do gerativismo, da Pragmática, da Linguística Textual, da Análise da Conversação e da Análise do Discurso.

Entre os linguistas mais destacados, as posições quanto ao ensino de língua na escola variam de um extremo a outro. Alguns propõem pura e simplesmente o fim do ensino de gramática e sua substituição por estudos de linguagem  — embora nunca tenha ficado clara o suficiente a diferença entre esses dois objetos de ensino nem como seria um programa escolar de estudos de linguagem (sem gramática).

Outros linguistas, sem desprezar por completo a gramática normativa, e sem pretender oferecer um modelo teórico acabado que substitua o primeiro, questionam o rigor dos conceitos da gramática normativa, ou a forma como vem sendo ensinada, e,  tomando como base um ou outro tópico gramatical, formulam propostas ou exemplos de um ensino de português renovado, geralmente buscando a dimensão semântica e/ou discursiva da língua.

A gramática no texto

A publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, em 1997, reforçou uma tendência que já se verificava no ensino de língua portuguesa, a de um ensino contextualizado de gramática, centrado no texto.

Contudo, enquanto para os PCN o texto devia ser tomado como o objeto básico de ensino e como unidade de sentido, em muitas escolas o que se notava, e ainda se nota hoje, é o uso do texto como mero pretexto para o tradicional ensino da gramática da frase. Ou seja, se antes frases descontextualizadas serviam como objeto para a teoria e para os exercícios de análise gramatical, hoje, equivocadamente, apresentam-se textos, dos quais são retirados fragmentos para uma abordagem linguística que não vai além do horizonte da frase. O texto, como unidade de sentido ou como discurso, é completamente esquecido.

Perde-se, assim, a oportunidade de se fazer um trabalho de reflexão gramatical integrado à leitura, que considere o texto como unidade de sentido. Em outras palavras, um trabalho de leitura que examine de que modo a língua é utilizada em todos as suas dimensões (fonética, morfossintática, semântica, estilística) para a construção do sentido ou dos sentidos do texto.

Se feito dessa forma, o trabalho com a língua aproximaria os estudos de linguagem de textos reais que circulam socialmente — literários e não literários — e instrumentalizaria melhor o estudante para suas práticas discursivas, seja na condição de enunciador, seja na de enunciatário. Esse trabalho, entretanto, pode ser ainda mais amplo se se der a ele uma dimensão enunciativa.

Na próxima semana, daremos continuidade a essa discussão.

 

 

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