Blog do Cereja


Tuesday, 27 de July de 2021 Rss
27 Aug

Prazer em conhecer

Prazer em conhecer

Prazer em conhecer


Foi meio por acaso que me deparei, numa livraria do aeroporto, com o  livro Prazer em conhecer (Ed. Papirus 7 Mares). Trata-se de um delicioso debate entre dois médicos e cientistas renomados: Drauzio Varela e Miguel Nicolelis, com mediação de Gilberto Dimenstein.

Varela dispensa comentários, dada sua atuação nos meios de comunicação com a finalidade de divulgar à população em geral informações sobre AIDS, obesidade e câncer de mama, entre outras doenças. E também é conhecido por sua atuação como escritor.

Nicolelis, menos conhecido no Brasil, é o responsável por estudos e experiências, nos Estados Unidos, na área de neurobiologia e engenharia biomédica, que visam integrar o cérebro humano com as máquinas, ou seja, os comandos neurológicos com próteses de pessoas que sofrem de paralisia. Para quem não se lembra, Nicolelis é o responsável pela experiência que resultou no chute de abertura da Copa do Mundo, neste ano. E é também responsável pelo projeto do Instituto Internacional de Neurociência de Natal, que visa despertar em crianças da periferia da capital do Rio Grande do Norte o interesse pela ciência. O cientista brasileiro vem sendo apontado como um dos vinte nomes mais cotados em todo o mundo para receber o prêmio Nobel.

O que mais me chamou a atenção no livro, à primeira vista, foi seu subtítulo “A aventura da ciência e da educação”, motivo pelo qual o comprei.

No último fim de semana, li o livro numa sentada. Prazer em conhecer transformou-se também no prazer de ler, de desfrutar das histórias maravilhosamente ricas dos dois cientistas: um, de origem bastante simples, e outro, da classe média paulistana.

O mais interessante na história dos dois médicos, que, por caminhos diferentes, ingressaram na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, é  a influência que receberam de seus professores. Em ambos os casos, eles descobriram o prazer de estudar e de conhecer a partir do que aprenderam com professores que também sentiam prazer em transmitir o que sabiam.

Nicolelis chega a citar o caso curioso de um professor da Faculdade de Medicina que, uma vez por semana, dava uma aula de Astronomia, ao som de óperas, para quem quisesse assistir. Esse professor, lembra ele, tinha o prazer de ensinar, de partilhar seu conhecimento e, independentemente dos astros por onde sua aula navegava, essa foi a principal lição que deixou. Varela também narra casos e exemplos de professores que despertaram nele o prazer de conhecer.

Curiosamente, os dois cientistas também se destacam como professores. Varela foi um excelente professor de cursinho durante vinte anos. Nicolelis ainda é professor universitário e abraçou o projeto pedagógico de levar crianças de Natal a sentirem o prazer de aprender ciência, sem notas nem cobranças de qualquer espécie.

Modestamente, eu também tive um professor que mudou completamente o rumo de minha vida. Seu nome era José Maria Scomparim e foi meu professor de Português no 2º e no 3º anos do ensino médio no curso noturno de uma escola pública. Por meio dele, descobri o prazer de ler e, como consequência, o prazer de conhecer.

Quando damos nossas aulas, mal imaginamos o que pode acontecer com nossos alunos a partir de nossas influências. Nem mesmo sabemos, às vezes, se o que estamos ensinando naquele exato momento tem tanta importância… Contudo, mais do que o conteúdo do que ensinamos, o importante parece ser o modo como ensinamos. Quando na educação entram amor e paixão, parece que o processo de educar ganha um novo significado, principalmente para os alunos.

Para o doutor César (o médico astrônomo), que mudou a vida de Nicolelis, “o único propósito da vida […] seria construir um propósito, empreender a grande aventura”. De certa forma, é o que Guimarães Rosa também disse no Grande sertão: “Viver ― não é? ― é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo”.

Como ensinar com paixão? Talvez a paródia ao texto de Rosa responda: porque aprender-a-ensinar é que é ensinar, mesmo!

 Leiam o livro! É apaixonante!    

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