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Wednesday, 27 de October de 2021 Rss
01 Dec

Questões de múltipla escolha ou questões dissertativas? (parte II)

Questões de múltipla escolha ou questões dissertativas? (parte II)

Quando trabalhamos a leitura, lidamos com determinadas operações cognitivas que são a base da interpretação de textos. São muitas as operações envolvidas, como identificar o assunto do texto, comparar um texto a outro com base em alguns critérios, identificar a finalidade ou a função social do texto, levantar hipóteses, identificar informações explícitas no texto, inferir informações implícitas, reconhecer o locutor e/ou o interlocutor a partir da variedade linguística utilizada, entre outras. 

O trabalho com essas operações pode se dar tanto de forma oral quanto escrita. O aluno pode trabalhar com a mesma qualidade respondendo oralmente às questões propostas, ou respondendo por escrito. O importante no processo é que ele vivencie todo o complexo de relações lógicas, explícitas e implícitas, que um texto apresenta e que perceba o texto como discurso, isto é, que veja o texto como produto de uma interação verbal, que cumpre uma função social, seja de informar, divertir, entreter, opinar, ensinar, alertar, etc. Escrever todas as respostas pode até, em alguns casos, tornar a atividade muito morosa, sobretudo quando é grande o número de questões.

Responder às questões por escrito é uma atividade que pode ser feita conjuntamente, mas não é imprescindível quando o foco é apenas o desenvolvimento da competência leitora.

No ensino de 1º a 5º anos, é natural que as duas atividades – ler e escrever – caminhem quase todo o tempo juntas, uma vez que a criança está se apropriando do sistema de escrita. Mas nada impede que às vezes uma atividade seja feita de forma completamente oral, seja para ler uma pintura, seja para ler um filme, como fazemos, inclusive, na seção Leitura de imagem/ Leitura de filme que abre as unidades de Português: linguagens.

Da mesma forma, quando se pensa em escrita, deverá haver momentos em que o foco da atividade não é a competência leitora em si, mas, sim, a competência escritora. Nesse momento, as atividades de escrita são prioritárias, embora as atividades de leitura oral possam acontecer esporadicamente.

Fiz questão de abordar inicialmente essa relação de complementaridade das atividades de leitura e de escrita, embora cada uma tenha uma relativa independência quando se foca especificamente sua competência,  porque entendo que assim fica mais fácil compreender a diferença entre as questões dissertativas e as de múltipla escolha.

Ora, o que é uma questão? Não pensemos apenas em questões de prova. Pensemos em questões em geral que formulamos aos alunos, seja para interpretar um texto, seja para conduzir uma atividade relacionada com a construção da escrita.

Qualquer que seja o formato dela ­­– dissertativa ou de múltipla escolha  ­­­­–, uma questão é sempre uma forma de estimular e conduzir o processo cognitivo do aluno. Evidentemente, o professor pode  formular questões mais concretas ou mais abstratas, mais simples ou mais complexas, envolvendo estas ou aquelas operações. Saber dosar esses níveis, de acordo com a realidade do aluno e da classe, já é vencer meia batalha.

Além das questões dissertativas e de múltipla escolha, que estamos destacando, ainda poderíamos citar vários outros tipos de questão, como as de ligar colunas, de pintar, de preencher lacunas, de nomear, de resumir, as questões lúdicas, como caça-palavras, forca, adivinhas, etc.  

Todos esses tipos de questão cumprem um papel importante no processo de aprendizagem e podem ser menos ou mais úteis, de acordo com o tipo de atividade, dos objetivos e do momento da aula.  

Voltando à polaridade ­ questões dissertativas X questões de múltipla escolha, acho que já ficou claro meu ponto de vista de que  os dois tipos de questão podem cumprir o papel de conduzir o processo de operações cognitivas. Não há por que achar que apenas as questões dissertativas têm valor pedagógico ou que são sinônimo de um “curso forte”.

As atividades de escrita, que são essenciais para o segmento de 1º a 5º anos, não devem ficar subordinadas ao trabalho de leitura e interpretação de textos. A diversidade de tipos de questão e de resposta parece ser uma opção melhor do que privilegiar um único tipo, qualquer que seja ele.

A escrita não será prejudicada, podemos ficar tranquilos. Ela estará presente em todos os momentos das aulas e, claro, será centro das atenções sobretudo nas atividades de produção textual, em que ela acontece de forma contextualizada.

No próximo bloco, pretendo discutir um pouco o grau de complexidade de questões de múltipla escolha, que pode ser bem maior do que imaginamos. 

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