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Sunday, 9 de May de 2021 Rss
08 Dec

Questões de múltipla escolha ou questões dissertativas? (parte III)

Questões de múltipla escolha ou questões dissertativas? (parte III)

Créditos: Thinkstock/Getty Images

Créditos: Thinkstock/Getty Images

Todo tipo de questão – dissertativa ou de múltipla escolha – mobiliza uma ou mais operações mentais. Uma simples pergunta como “Por que a personagem agiu desse modo?” vai necessariamente obrigar o aluno a estabelecer uma relação de causa e consequência; outra pergunta como “Qual é a diferença entre o comportamento da personagem A e o da personagem B” vai obrigá-lo a estabelecer uma comparação e talvez a fazer algumas inferências; outra como “Identifique o trecho em que ocorre tal situação” provavelmente implicará identificar informações explícitas no texto. Assim, dependendo da clareza do enunciado, do número de habilidades e da complexidade delas, a questão poderá ser menos ou mais fácil.

Um teste de múltipla escolha, embora apresente explicitamente a resposta em uma de suas opções, nem sempre é mais fácil do que uma questão dissertativa, como pode parecer. Ao contrário, em alguns casos chega a ser mais difícil porque, além de dominar o conteúdo e executar a operação principal (por exemplo, comparar, relacionar, inferir, etc.), o aluno ainda é obrigado a julgar a propriedade de cada uma das alternativas quanto ao conteúdo e a compará-las entre si, em busca daquela que complemente ou atenda melhor ao que pede o enunciado.

Por exemplo, numa questão que envolva uma relação de causa e consequência, a consequência pode ser apontada no enunciado e a causa estará entre as alternativas. Uma tarefa aparentemente simples pode, contudo, tornar-se muito complexa se a causa não estiver explícita no texto, o que vai obrigar o aluno a fazer inferências, a interpretar e a comparar cada uma das alternativas entre si, para chegar à melhor opção.

Além disso, numa questão dissertativa, o aluno tem a liberdade de se expressar mais livremente e, muitas vezes,  ele pode ganhar uma nota parcial por uma resposta que revele um raciocínio correto até certo ponto. No teste de múltipla escolha, é claro, essa possibilidade não existe.

Quando o Enem ganhou a importância nacional que hoje tem, muitas escolas perceberam que, embora seus melhores alunos tivessem conteúdo,  talvez não tivessem experiência para lidar com a complexidade de certas questões (chamadas pelo Enem de “situações-problema”) que envolviam um grande número de operações, além das operações que o próprio teste de múltipla escolha obriga. Daí os “treinos” a que os alunos passaram a ser submetidos periodicamente. Em outras, palavras, era preciso desenvolver habilidades para fazer esse tipo de prova, que se dá em condições muito diferentes das provas mensais, bimestrais ou trimestrais regulares.

O interesse pelas questões de múltipla escolha se disseminou nas escolas públicas e particulares, em todos os níveis de ensino. A direção de muitas escolas passou a solicitar de seus professores a produção de simulados no “estilo Enem” para preparar os alunos.

Como autores didáticos, recebemos inúmeros apelos de professores que pediam questões de múltipla escolha, para que as aulas se aproximassem mais da realidade de hoje, marcadas por avaliações como a Prova Brasil, o Enem e o vestibular.

Na nova edição da coleção Português: linguagens do 1º ao 9º ano, que ora chega às escolas, procuramos atender à necessidade dos professores. Mas com moderação e cuidado.

No próximo post, discutirei como isso se dá na nova edição dessas obras. 

 

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