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Sunday, 9 de May de 2021 Rss
21 Jul

Rubem Alves: o pianista das palavras

Rubem Alves: o pianista das palavras

Rubem Alves

“Toda alma é uma música que se toca. Quis muito ser pianista. Fracassei. Não tinha talento. Mas descobri que posso fazer música com palavras. Assim, toco a minha música… Outras pessoas, ouvindo a minha música, podem sentir sua carne reverberando como um instrumento musical. Quando isso acontece, sei que não estou só. Se alguém, lendo o que escrevo, sente um movimento na alma, é porque somos iguais. A poesia revela a comunhão.”

(Rubem Alves. Na morada das palavras. Campinas: Papirus, 2003. p. 71.)

Perdemos Rubem Alves, uma das figuras mais incríveis da Educação brasileira. Para nós, educadores, é quase impossível não termos sido tocados algum dia por um de seus textos.

O texto acima, fragmento do livro Na morada das palavras, é um de meus preferidos do autor. Nele, encontramos um pouco do universo criado por Alves: reflexões sobre a poesia, sobre a alteridade, sobre o papel do artista e, indiretamente, sobre educação.

Para o escritor, que foi um jovem solitário e diferente dos jovens de seu tempo, a palavra, como ele conta, foi sua salvação. Era um jeito de ele se comunicar com o mundo, primeiramente na condição de leitor e, mais tarde, na condição de escritor.

Músico frustrado, a imagem de fazer poesia tocando a sua música com palavras é simplesmente maravilhosa. E gosto mais ainda da imagem do corpo do leitor reverberando as palavras do poeta, como um instrumento musical. Epifania! Revelação! Esse é o alcance da poesia, estabelecendo uma comunicação mágica entre os interlocutores.

Era assim também que Rubem Alves pensava a educação. Para ele, a educação deveria ser sempre o prazer da descoberta. Mais do que currículos, leituras obrigatórias, preparação para o vestibular e chateações escolares, a escola deveria ser o espaço em que reverbera o saber. E todos os participantes ― alunos, professores, diretores ― deveriam ser os instrumentos reverberantes, entoando a melodia de desvendamento do desconhecido, em total comunhão.

Ainda me lembro de quando eu o encontrei, há alguns anos, num hotel em Angra dos Reis, aonde fomos fazer palestras num tradicional evento de educação do município. Nos conhecemos no saguão do hotel, trocamos algumas palavras… Sua humildade e generosidade me impressionaram muito. No dia seguinte, depois de dar a minha palestra, pude assistir à dele. Já o conhecia de livros e vídeos, mas vê-lo pessoalmente falando foi inesquecível. Meu corpo, meu ser reverberavam suas palavras. Naquela tarde de sol, no cenário paradisíaco de Angra, o auditório virou pura música, numa maravilhosa e inesquecível sonata.

Foi-se nosso pianista das palavras, mas sua poesia, como diz Drummond, “inunda minha vida inteira”.
Obrigado, mestre!

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