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Tuesday, 27 de July de 2021 Rss
05 Jan

Sebastião Salgado: a imagem como espelho

Sebastião Salgado: a imagem como espelho

Sebastiao Salgado

Um dos presentes que ganhei no Natal foi o livro Sebastião Salgado – Da minha terra à Terra (Ed. Paralela), no qual o fotojornalista conta sua própria história, com auxílio de Isabelle Francq. E essa se tornou uma das leituras mais prazerosas que já fiz.

Já há muito era um admirador da obra fotográfica de Salgado e tenho alguns de seus livros. A principal dificuldade de utilizar suas imagens em meus livros didáticos é o preço, que geralmente foge ao orçamento de um livro didático, que conta com centenas de imagens entre fotografias, reprodução de obras de arte, cartuns, quadrinhos, etc.

Entretanto, a leitura de Sebastião Salgado – Da minha terra à Terra me apaixonou. Talvez porque tenha trazido algo novo: a confirmação daquilo que sempre imaginamos ao ver as fotos: o fotógrafo, ou melhor, o homem que está por trás delas.

No livro, Salgado começa a contar sua vida pelas primeiras experiências no meio rural do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais: sua relação com os trabalhadores da fazenda do pai, sua relação com os animais e a natureza em geral, seu gosto por longas viagens. Depois, relata seu interesse por Economia (uma economia social), a vida estudantil na universidade, seu interesse pelas causas sociais, a militância no Partido Comunista, o golpe de 1964 e seu exílio para Paris, onde começou a fazer o doutorado em Economia.

Em Paris, ele  e sua esposa Lélia tiveram contato com muitos intelectuais, entre eles brasileiros também exilados, e se envolveram com as causas sociais que algumas entidades promoviam tanto na Europa quanto na África.

Assim nasce o fotógrafo, que num primeiro momento se dividia entre um bom emprego em Londres (que envolvia o desenvolvimento de projetos sociais na África) e a paixão pela fotografia. Logo depois, com a concordância de Lélia, Salgado abandona tudo para dedicar-se exclusivamente à fotografia e tornar-se, em poucos anos, um dos maiores fotógrafos do mundo e, provavelmente, o mais importante fotojornalista da atualidade.

Apenas como aperitivo desse livro delicioso, reproduzo aqui o primeiro parágrafo do capítulo 7 da obra: “A fotografia, meu modo de vida”:

“Para alguns, sou um fotojornalista. Não é verdade. Para outros, sou um militante. Tampouco. A única verdade é que a fotografia é minha vida. Todas as minhas fotos correspondem a momentos intensamente vividos por mim. Todas elas existem porque a vida, a minha vida, me levou até elas. Porque dentro de mim havia uma raiva que me levou àquele lugar. Às vezes fui guiado por uma ideologia, outras, simplesmente pela curiosidade ou pela vontade de estar em dado local. Minha fotografia não é nada objetiva. Como todos os fotógrafos, fotografo em função de mim mesmo, daquilo que me passa pela cabeça, daquilo que estou vivendo e pensando.” (p. 47)

Ao longo de capítulos curtos, Salgado vai reconstruindo o contexto que deu origem a cada um de seus projetos: Gênesis, Trabalhadores, África, Outras Américas e Êxodos, entre outros. Ao ler os relatos, é quase incontrolável o desejo de voltar a seus livros e rever as imagens que documentaram o mundo contemporâneo e grandes tragédias humanas, como o massacre ocorrido em Ruanda, em 1994.

A obra de Salgado é uma denúncia, pela imagem, do mundo em que vivemos. Como diz o artista: “não são os fotógrafos que criam as catástrofes, elas são os sintomas da disfunção do mundo do qual  todos participamos. Os fotógrafos existem para servir de espelho, como os jornalistas”(p. 94).

Enquanto lia a obra, notava várias possibilidades de uso pedagógico dela. Entre elas, a possibilidade de aproveitar um trecho para trabalhar em produção textual o gênero relato pessoal no ensino fundamental II e, principalmente, no ensino médio. A obra também pode ser utilizada para introduzir reflexões acerca de nosso tempo ou do trabalho do jornalista ou do artista e, com essas reflexões, propor a produção de textos e gêneros como o artigo de opinião, o editorial, a crônica argumentativa e a dissertação escolar.

A obra também permite diferentes abordagens intertextuais e interdiscursivas. Pode ser lido, como leitura extraclasse, e comparado às próprias obras fotográficas de Salgado, e ainda ao magnífico filme Mil vezes boa noite, de Erik Poppe, e ao filme O abutre, de Dan Gilroy, ainda em cartaz. Ambos os filmes mostram o trabalho de fotojornalistas: o primeiro, em zonas de conflito (exatamente como faz Salgado); o segundo, nos centros urbanos, em que o fotojornalismo muitas vezes serve como material para alimentar noticiários sanguinolentos, interessados apenas em audiência. Apesar de os dois filmes serem dois extremos do fotojornalismo, ambos desenvolvem reflexão crítica acerca da responsabilidade e da função do profissional que está por trás das câmeras.

Tenho certeza de que ler o livro de Salgado, no todo ou em parte,  assistir aos filmes com os alunos e debater essas obras serão uma atividade diferente, radical e marcante na vida dos jovens. Um bom jeito de começar o ano! Bom 2015 para todos!          

            

 

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