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Sunday, 9 de May de 2021 Rss
21 Jan

Virgínia, de Coppola: a volta ao gótico

Virgínia, de Coppola: a volta ao gótico

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Na última semana, houve o lançamento de Virgínia, o mais novo filme de Francis Ford Coppola.

Com esse filme, Coppola retoma a tradição gótica no cinema, na qual deixou sua marca inesquecível com Drácula de Bram Stocker.

Com uma narrativa menos envolvente e sedutora do que a de Drácula, Virgínia conta a história de um escritor decadente (o ator Val Kilmer), que, divulgando seu livro mais recente, chega a uma pequena cidade do interior e ali se envolve no misterioso assassinato de uma jovem.

A sensação inicial é de que estamos dentro de um conto de Edgar Allan Poe, com a mesma atmosfera sombria e até certo ponto ingênua do pós-Romantismo. A figura do xerife e a de seu assistente lembram aqueles filmes de terror barato da série B.

Contudo, eis que, surpreendentemente, em certo momento surge o próprio Poe, que passa a ter uma participação importante no roteiro, ao travar diálogos interessantes com o protagonista a respeito da criação literária. Aconselhando o escritor decadente, que busca uma nova história que venda e agrade ao seu editor e à sua esposa ávida por dinheiro, Poe comenta como se deu o processo de criação de seu famoso poema “O corvo”. Esse diálogo certamente foi inspirado no conhecido ensaio de Poe, “A filosofia da composição”, que trata do processo de construção artística.

Várias outras citações literárias são feitas no filme, como o conto “A casa de Usher”, do próprio Poe, além da declamação de poemas de Baudelaire na boca de uma das personagens.

O filme glosa tanto a tradição dos contos policiais de Conan Doyle, quanto os contos de mistério de Poe, quanto ainda a tradição de todo o cinema de terror, com seus vampiros sanguinolentos e sensuais.

O final surpreendente do filme confirma a tradição. Revela-se o assassino. Porém, mais do que isso, o protagonista revela-se a si mesmo, ou melhor, conhece-se a si mesmo, já que sua história pessoal se funde à história da moça morta, representada pela bela atriz Elle Fanning.

Enfim, Coppola volta em grande estilo, numa abordagem quase didática do gótico.

O filme é perfeito para os professores que estão trabalhando com a literatura gótica da fase ultrarromântica. Sugiro assistir ao filme com os alunos e ler alguns dos textos citados, como o conto “A casa de Usher”, o poema “O corvo” e poemas de Baudelaire. Os alunos certamente vão gostar. Além disso, vão passar a ter uma visão diferente da literatura e de suas relações com o cinema.

 

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